Como já afirmamos, a identidade entre revolução industrial e capitalismo não permite afirmar que os avanços técnicos tenham sido inaugurados com este modo de produção. Como lembra Santos, um certo grau de desenvolvimento das forças produtivas já é um pré-requisito para o surgimento deste:
O modo de produção capitalista surge num estágio bastante elevado da luta do homem para submeter a natureza. De fato, este modo de produção surge como consequência do alto desenvolvimento das forças produtivas devido à expansão das indústrias e do comércio mundial (SANTOS, 1983, p. 11)
Esta correspondência entre revolução industrial e capitalismo pressupõe apenas “um novo patamar da relação entre o homem e a natureza, de forma análoga à objetivação do corpo humano nas ferramentas produzidas desde o paleolítico” (BEVILAQUA, 2015, p. 251).
Engels, ao mesmo tempo que reconhece a importância da revolução industrial e seu significado dentro da luta de classes, logo seus aspectos econômicos, políticos, sociais e culturais, demonstra também o outro lado do processo de ruptura, a continuidade da mudança tecnológica ao longo da história da humanidade, inclusive no período que antecedeu a conformação das classes sociais, remontando à constituição da nossa espécie, como explica o título da sua obra, inacabada e publicada postumamente, O papel do trabalho na transformação do macaco em homem, na qual podemos ler que “[o trabalho] é a condição básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem”. (ENGELS, 2010A, p. 452). Na linha de Engels, Álvaro Vieira Pinto, em obra também publicada postumamente, O Conceito de Tecnologia, critica a expressão “era tecnológica” para descrever o período contemporâneo. Para ele, se tratava de uma construção ideológica apologética do sistema, para “embriagar a consciência das massas, fazendo-as crer que tem a felicidade de viver nos melhores tempos jamais desfrutados pela humanidade” (PINTO, 2005, p. 41). Isso em um mundo no qual o domínio da tecnologia encontra-se nos centros imperialistas, cabendo ao mundo periférico a condição de paciente receptor das inovações técnicas. Em sua formulação, Pinto nota que no processo de sua constituição, os seres humanos adquirem a capacidade de projetar (teleologia), ao mesmo tempo em que convertem em seres sociais, algo necessário à produção do que foi projetado. Acompanha-o Frigotto (2006), para quem “o trabalho é a categoria ‘ontocriativa’ da vida humana, e o conhecimento, a ciência, a técnica e a tecnologia e a própria cultura são mediações produzidas pelo trabalho na relação entre os seres humanos e os meios de vida”.
Não é possível falar em trabalho em falar sem desenvolvimento da técnica, afinal, como também nota Engels (2010a, p. 452), “O trabalho começa com a elaboração de instrumentos”, ou seja, também podemos definir o ser humano por sua capacidade tecnológica.
Para ROSENBERG (2006, p. 17),
[…] num sentido fundamental, a história do progresso técnico é inseparável da história da própria civilização, na medida em que trata dos esforços da humanidade para aumentar a produtividade sob uma gama extremamente diversificada de condições ambientais.
Desta forma, a Revolução Industrial pode ser colocada em uma perspectiva ainda maior, de conformação e transformação da existência humana a partir do trabalho, perfilando-se ao lado de dois outros grandes processos revolucionários muitas vezes olvidados, as revoluções do Paleolítico e do Neolítico.
Desenvolvimento tecnológico não é idêntico a desenvolvimento científico, apesar da crescente organicidade entre ambos durante o capitalismo ao ponto de Rosa (2006, p. 13) definir a ciência contemporânea como tecnociência, um termo originário da abordagem construtivista, que “significa a junção da ciência com a tecnologia dela derivada e que retroativamente a alimenta”.
Exemplo desse entrelaçamento é o fato de que atualmente apenas uma pequena parte da produção científica é realizada sem o uso de complexos instrumentos tecnológicos. Contudo, existem diferenças históricas e lógicas entre ambos os processos de acúmulo de conhecimento e entre suas respectivas instituições.
Ao longo do século XX debateu-se o quanto o início do processo de industrialização deve-se à aplicação sistemática da ciência moderna à produção. A relação direta entre a ciência e o progresso técnico, que hoje consiste num verdadeiro truísmo, não é tão evidente quando nos focamos nos primórdios da Revolução Industrial. O debate é bastante matizado, como relata Rosenberg (2006): Musson e Robson em seu livro Science and Technology in the Industrial Revolution ressaltam a dependência que o progresso técnico teve com a ciência no período da Revolução Industrial a partir da apresentação de abundante evidência dos canais que ligavam os cientistas aos homens de negócio. Esta é também a posição de Rostow. Mas, do lado oposto, estão numerosos historiadores da tecnologia que ressaltam a importância da tentativa e erro1 e de um exercício paciente de empirismo como Usher, Landes e Gilfillan. Hall, por exemplo, afirma que não existem evidências que liguem o desenvolvimento anterior a 1760 à erudição ou à educação formal (ROSENBERG, 2006). Neste caso, faz diferença a opção por um conceito mais estrito de ciência, definida como corpo de conhecimento consistentemente integrado em uma estrutura teórica, ou por um conceito mais amplo que abrange a mudança de procedimentos e atitudes perante os métodos experimentais. Um alto grau de originalidade científica não parece ter sido uma condição necessária para o dinamismo tecnológico (ROSENBERG, 2006). Na Inglaterra parece ter sido um pouco diferente, pelo menos Schofield aventou a hipótese de que as sociedades científicas provinciais, como a Lunar Society de Birmingham propiciavam um relacionamento estreito entre os cientistas e o setor produtivo.
Marx nos Grundrisse antecipa a conclusão que historiadores econômicos levaram mais de um século para assentar, de que “o desenvolvimento da maquinaria por essa via [aplicação sistemática da ciência] só ocorre quando a grande indústria já atingiu um estágio mais elevado e o conjunto das ciências já se encontra cativo a serviço do capital”, ou seja, “esta não é a via que deu origem à maquinaria no geral, e menos ainda a via pela qual ela avança em particular”. A via original de desenvolvimento do sistema de máquinas para Marx “é a análise – pela divisão do trabalho, que transforma as operações dos trabalhadores cada vez mais em operações mecânicas, de tal modo que a certa altura o mecanismo pode ocupar os seus lugares” (MARX, 2011, p. 587). A construção das primeiras máquinas é consequência da especialização do trabalho artesanal, uma característica da manufatura medieval, pois “é justamente porque a habilidade artesanal permanece como a base do processo de produção que cada trabalhador passa a dedicar-se exclusivamente a uma função parcial, e sua força de trabalho é então transformada em órgão vitalício dessa função parcial” (MARX, 1996, l. 1, v. 1, p. 455). Marx embasou suas conclusões em um profundo estudo sobre a história da tecnologia, que ficou registrado em anotações que foram batizadas de Cadernos de Marx sobre a História da Tecnologia. Este material, que nunca foi publicado, chegou a ser consultado no passado, mas no momento sua localização não é conhecida publicamente2. Em uma carta a Engels, na qual Marx se refere a essas anotações, ele também relata ter participado de um curso prático experimental sobre o tema.
O conhecimento obtido acerca do desenvolvimento, ao longo da história, do processo de trabalho permitiu que Marx o distinguisse conceitualmente do processo de produção de valor, enfatizando assim a utilidade de se refletir acerca do “processo de trabalho independentemente de qualquer forma social determinada” (MARX, 1996, l. 1, v. 1, p. 297). Desta ótica, o processo de trabalho é a mediação entre os seres humanos e a natureza que resulta na transformação de ambos:
Ele [o ser humano] põe em movimento as forças naturais pertencentes a sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a Natureza externa a ele e ao modificá-la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. (MARX, 1996, l. 1, v. 1, p. 297).
O entendimento de que o desenvolvimento das forças produtivas é o próprio desenvolvimento da relação entre os seres humanos e a natureza não permite imputar a Marx uma concepção determinista tecnológica da história humana, pois como bem frisa Bevilaqua:
no conceito de forças produtivas está a expressão reificada das classes sociais, logo, as relações de produção, que derivam destas, e que expressam tanto o seu desenvolvimento material, quanto intelectual, condensados em sua atividade prática, interesses imediatos e futuros; portanto, a luta de classes, consequentemente o fundamento histórico de todas as transformações revolucionárias na sociedade humana; seja nas relações de produção, seja nas formas ideológicas, jurídicas e políticas, com que toma consciência das contradições da vida material e chega às últimas consequências para resolvê-las (BEVILAQUA, 2015, p. 250).
Analisando o processo de produção desde o surgimento do humano como ser social, podemos traçar uma linha de continuidade entre o desenvolvimento empírico que se iniciou na pré-história com a fabricação das primeiras ferramentas como extensão do corpo humano, que será objeto da digressão do próximo subcapítulo, e a especialização do trabalho artesanal que permitiu a posterior criação das máquinas como órgãos da produção.
1Um exemplo, já no século XX, é o de Santos Dummont, normalmente apresentado como inventor e quase nunca como cientista, o que coincide com seu método eminentemente experimental que o fez voar sem que ele precisasse resolver as equações de Navier-Stokes que descrevem o escoamento de fluídos. Isso levou Einstein a se indagar em 1916 sobre a causa da sustentação das asas de “nossas aves e máquinas voadoras”, afirmando haver “uma falta de clareza em geral sobre esta questão” (STUDART, 2006).
2Existe a expectativa que estes façam parte da terceira coleção de suas obras completas, conhecidas pelo acrônimo MEGA (Marx-Engels-Gesamtausgabe), que terá cerca de 114 volumes, sendo que até agora já foram publicados 65. Pelo plano divulgado, serão ainda publicados 32 volumes apenas de excertos, notas e anotações marginais, a grande maioria dos quais permanece inédita.
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