O quão revolucionária foi a Revolução Industrial?

O quão revolucionária foi a Revolução Industrial?

Se a existência da Revolução Industrial é, hoje, quiça, um dos grandes pontos de concordância entre historiadores e economistas, o significado desse processo e o estabelecimento dos seus marcos temporais são objeto das mais diversas interpretações. Hobsbawn, por exemplo, considera que este “não foi um episódio com um princípio e um fim. Não tem sentido perguntar quando se 'completou', pois sua essência foi a de que a mudança revolucionária se tornou norma deste então. Ela ainda prossegue” (HOBSBAWM, 1997). O termo Révolution Industrielle, como nota GRIFFIN, foi muito provavelmente cunhado “na França, no início do século dezenove, por economistas políticos impressionados com os tremendos avanços econômicos e sociais que haviam sido recentemente obtidos do outro lado do Canal”. Tratava-se de uma analogia com a Revolução Francesa, da qual a Revolução Industrial seria a contraparte...

O Dilema de Cordélia, o enviesamento invisível como crise de paradigmas

O Dilema de Cordélia, o enviesamento invisível como crise de paradigmas

Na peça Rei Lear de Shakespeare, Cordélia é castigada por sua honestidade recebendo porção menor que suas irmãs. Stephan Jay Gould, biólogo, paleontólogo e historiador da ciência, que se tornou bastante conhecido por seu trabalho como divulgador da ciência, é o autor de um ensaio no qual define o que batizou como dilema de Cordélia. A referência remete à peça Rei Lear de William Shakespeare, na qual a filha caçula do rei é banida do reino por manter-se honesta e não bajulá-lo a exemplo de suas irmãs Goneril e Regan. Enquanto as duas últimas realizam discursos aduladores, afirmando amar o pai mais do que qualquer outra coisa, Cordelia responde a seu pai dizendo que se limita a “amar e ficar em silêncio”, o que enfurece o Rei, levando-o a sua drástica decisão. O erro de Lear lhe custa caro, suas duas outras filhas conspiram contra ele em um trágico enredo que termina com a morte do reu e...

O chumbo e o açúcar, exemplos de fraudes e interferência direta

O chumbo e o açúcar, exemplos de fraudes e interferência direta

Clair Patterson provou que o chumbo na gasolina estava envenenando os trabalhadores Existe uma infinidade de exemplos de como as grandes corporações manipularam estudos científicos para que os mesmos não contradissessem seus interesses. Falamos aqui de fraudes, compra de consciências, mentiras e omissões para proteger as empresas de ações judiciais. Um caso extremamente emblemático é o que envolveu Clair Patterson, geoquímico que teve um papel importante na campanha que terminou por banir o uso de chumbo nos combustíveis na maioria dos países. Patterson tornou-se conhecido por ser um dos responsáveis pelo método de datação urânio-chumbo, utilizando-o para obter em 1956 a primeira estimativa precisa da idade do planeta terra, de 4,55 bilhões de anos. Ele chegou a essa estimativa observando a proporção entre o urânio e o chumbo encontrados no interior do mineral zircão. Como com o tempo...

Fraudes escancaradas e enviesamentos invisíveis

Fraudes escancaradas e enviesamentos invisíveis

Richard Lewontin coautoru com Richard Levins "O Biólogo Dialético" Em sua conferência de 1990 na Universidade de Toronto, intitulada Biologia como Ideologia, Richard Lewontin teceu interessantes observações sobre como a ciência ocupou, em uma sociedade mais secular e racionalista, um papel que antes era exclusivo da Igreja: o de prover justificativas para a consciência popular acerca dos fenômenos sociais. Para este geneticista, vencedor do prêmio Crafoord1 em 2015, a ciência como as demais atividades produtivas é “uma instituição social completamente integrada e influenciada pelas estruturas das demais instituições sociais” (LEWONTIN, 2000). Os problemas que ela lida, as ferramentas das quais ela dispõe, e até os resultados obtidos são fortemente influenciados pelas predisposições que advêm da sociedade na qual vivemos. A produção científica é uma atividade produtiva que consome tempo...

A solução das publicações de livre acesso e o novo problema das predatórias

A solução das publicações de livre acesso e o novo problema das predatórias

Respondendo aos problemas do processo de publicação de artigos científicos, surgiu um novo tipo de periódico científico conhecido como publicação de acesso aberto. É o caso, por exemplo, da biblioteca de periódicos do projeto PLOS, que além de promover o livre acesso, não endossa os fatores de impacto como métricas úteis para avaliar a performance de artigos individuais. Para sustentar esse modelo, as publicações deste projeto cobram entre US$1.450 e U$2.900 dos autores por artigo, com a ressalva de que a impossibilidade do autor em pagar não impede a publicação, que é revisada por pares. Este modelo logo se revelou um sucesso e experimentou um crescimento exponencial. Um estudo estimou um salto de 19.500 artigos em publicações de acesso livre no ano 2000 para 191.850 em 2009, um aumento de 1.000% (LAAKSO, 2011). Contudo, entre essas publicações de acesso livre, surgiram diversas tidas...

Publicar, publicar, lucrar

Publicar, publicar, lucrar

O produtivismo na academia, que se expande por todo o globo, impõe-se pelo entrelaçamento da concessão de financiamento com a adoção de métricas de avaliação majoritariamente quantitativas e enviesadas. No Brasil, esta pressão é responsável, por exemplo, pelo fato de que ocupemos, no ranking entre os diferentes países, a 12ª posição em quantidade de artigos indexados, enquanto que o número de citações a esses tenha caído para a 27ª posição. Como bem coloca Keneth de Cargo Jr, professor do Departamento de Planejamento e Administração em Saúde do Centro Biomédico da Universidade do Estado do Rio de Janeiro: Espalham-se subterfúgios para incrementar a quantidade de artigos e capítulos publicados, e mesmo de citações: a produção em série de artigos sem maior interesse ou inovação, ainda que fundamentalmente corretos, a multiplicação do número de autores para cada texto sem que se considere...

A Crise da Responsabilidade Acadêmica e a Crise do produtivismo

A Crise da Responsabilidade Acadêmica e a Crise do produtivismo

Do ponto de vista da sociologia, uma outra voz que se soma à percepção de uma crise generalizada na produção científica é a de Lindsay Waters, editor de humanidades da Harvard University Press, uma dais mais importantes editoras acadêmicas dos Estados Unidos. Em seu provocativo ensaio Inimigos da Esperança Publicar, Perecer e o Eclipse da Erudição, ele traça um complexo cenário de deterioração da produção do saber, referindo-se à “crise da responsabilidade (accountability) acadêmica1”, “eclipse do valor”, “crise das monografias”, crise de “superprodução”, “crise generalizada da avaliação” (judgment) (WATERS, 2004, passim, tradução nossa). Para ele, a erosão do sistema de publicações com o boom de produção, caracterizado por um forte crescimento no número de artigos publicados a partir dos anos 1960, resulta de uma cultura de hiperinflação (WATERS, 2004, p. 22, tradução nossa). O...

O significado do experimento científico

O significado do experimento científico

Contrariando a visão dos autores que desestimam a importância da replicabilidade dos experimentos, argumentamos que a mesma é uma exigência lógica que não apenas constitui um princípio do método científico, mas é uma exigência da filosofia materialista. Ela parte do pressuposto de que cada fenômeno tem a sua verdade material, de uma forma muito semelhante à qual este conceito é utilizado na ciência do direito. Se existe sangue derramado, este pode, ou não, ser o indício de que este local foi o cenário de um homicídio. Mas, de alguma forma o sangue apareceu ali, e deve-se buscar uma explicação material para isto. Um dos primeiros cientistas a tratar do problema da reprodutibilidade dos experimentos abertamente foi o químico inglês Robert Boyle em obra publicada em 1675. Este autor trabalha com uma analogia entre a investigação científica e a investigação criminal: Pois, embora o...

O p-hacking na prática

O p-hacking na prática

Para demonstrar que a mera identificação de um problema, que se arrasta há décadas, não representa sua superação prática, em 2015, o jornalista especializado em ciência John Bohannon, que também é doutor em biologia molecular de bactérias, realizou uma espécie de experimento trote que em seus objetivos se assemelha ao artigo deliberadamente falso que Sokal publicou na revista Social Text, da editora da universidade de Duke, em 1996, de forma a provar a falta de critério das publicações de ciências humanas influenciadas pelo pós-modernismo. No caso de Bohannon, sua falsa descoberta de que comer chocolate amargo ajuda a emagrecer foi publicada na International Archives of Medicine, sob o pseudônimo Johannes Bohannon. A mudança no seu primeiro nome foi para soar como um nome alemão e reforçar a falsa biografia que ele criou na internet, inclusive com a confecção de um site do inexistente...

Um pouco sobre a Inferência Bayesiana

Um pouco sobre a Inferência Bayesiana

Caso observássemos a caixa de correio dos vizinhos para saber mais informações acerca do bebê que eles esperam, poderíamos testar nossas hipóteses partindo de uma provável correlação entre a cor das roupas e o sexo do bebê. Se em vez de um enxoval encontrássemos caixas com ração de gatos, arranhadores e areia para gatos, isso não nos permitiria testar a hipótese de que os vizinhos deram a luz a um gato. O fato de descartarmos essa hipótese, apesar da “evidência” dos dados colhidos, se deve ao fato desta hipótese ser a priori considerada muito, muito pequena. Essa é a ideia de outro quadrinho do XKCD, que mostra o absurdo permitido pela abordagem frequentista de se estar vivo e ainda assim acreditar que o sol explodiu como uma supernova. Mesmo que se argumentasse que os neutrinos medidos tivessem chegado antes do plasma da explosão e estivéssemos vivos neste intervalo, nunca foi...