A ciência e a inovação no contexto do processo de produção de valor

A especificidade do processo de trabalho no modo de produção capitalista é que o processo de produção de valores de uso, objetos destinados à satisfação das necessidades humanas, conforma uma unidade dialética com o processo de produção de valor, mensurado através do quantum de trabalho social contido em cada mercadoria. Enquanto que a produção de valores de uso só é possível pelo caráter concreto do trabalho, o processo de produção de valor só faz sentido ao considerar-se o caráter abstrato do trabalho, justamente o que permite que as mais variadas atividades produtivas humanas possam ser comparadas e seus resultados intercambiados no mercado.

Esta contradição histórica desenvolvida pela relação-capital, manifesta no duplo caráter do trabalho (concreto e abstrato) e que se expressa na ambiguidade da forma mercadoria (valor de uso e valor de troca) também se manifesta na produção científica:

Ao mesmo tempo em que ela é um momento do acúmulo de conhecimento humano, que pode ser traduzido em uma aplicação concreta (seu valor de uso), ela também é uma indústria, um departamento da produção capitalista, que só pode ter sua dinâmica explicada pelo processo de valorização do capital (seu valor de troca) (BEVILAQUA, 2015, p. 295).

Conforme observa Marx no fragmento dos Grundrisse dedicado às máquinas, “A invenção torna-se então um negócio e a aplicação da ciência à própria produção imediata, um critério que a determina e solicita” (MARX, 2011, p. 587).

Reconhecer a mercantilização da ciência e sua submissão à lógica da relação capital no processo de produção de valor não neutraliza o papel revolucionário do desenvolvimento tecnológico que media e transforma a relação entre os seres humanos, e também entre estes e a natureza.

O processo de reprodução de capital não pode ser examinado satisfatoriamente apenas pelo lado do valor de troca, por isso Marx abordou ambos os aspectos da mercadoria e do trabalho em sua análise. É na vitalidade dessa contradição, e no movimento que resulta da unidade dos contrários, que residem os efeitos que permitem vincular a produção científica à crise orgânica do capital.

Santos (1983) destaca o fato de que as mudanças tecnológicas afetam o caráter útil e concreto dos bens. São produzidas na vida material e não no plano mercantil. São um acúmulo da experiência produtiva do homem, do desenvolvimento da ciência e independem do modo de produção. O sistema não pode criar um conhecimento que não se submete à própria lógica do conhecimento. Isso não significa atribuir uma neutralidade à tecnologia. O capitalismo impulsiona as mudanças que favorecem o aumento da taxa de lucro. (SANTOS, 1983, p. 237-250)

A partir da lógica da análise econômica, Rosenberg (2006, p. 18) refere-se ao debate em torno do papel econômico desempenhado pelo progresso científico-técnico no capitalismo:

A grande massa de escritos dos economistas sobre o tema […] tanto teóricos, quanto empíricos se atém ao papel das mudanças técnicas na redução de custos. Essa redução ocorre, porque o desenvolvimento tecnológico aplicado à produção permite que com a mesma quantidade de capital investido se produza um volume maior de um dado produto.

Apesar do discurso de muitos burgueses que se autointitulam beneficentes e que afirmam estarem doando suas fortunas desinteressadamente para financiar, por exemplo, a conquista do espaço, é um fato que o investimento em ciência e tecnologia é feito somente se um retorno econômico puder ser vislumbrado, direta ou ainda indiretamente, como no caso da pesquisa militar, esfera na qual, além do lucrativo mercado internacional, a supremacia possibilita o domínio de recursos e mercados. Se os problemas tecnológicos para se enviar um foguete à lua não fossem exatamente os mesmos que os para se enviar uma ogiva nuclear até outro continente através de uma trajetória balística, certamente a corrida espacial não teria a importância que teve durante a corrida armamentista nuclear no contexto da Guerra Fria, como demonstra o fato notável de nenhum ser humano ter pisado na lua desde 1972, mesmo ano em que os Estados Unidos e a União Soviética iniciaram as tratativas que levaram à assinatura do Tratado sobre Mísseis Antibalísticos (ABM), banindo novos desenvolvimentos na área e estabilizando o balanço de forças entre estas potências. Já o ressurgimento da indústria espacial na segunda década do século XXI está ligado à possibilidade de mineração de asteroides e a uma nova corrida armamentista no contexto do fim da hegemonia estadunidense1.

Isso não significa, como simplificam em demasia muitos economistas, algo notado por Rosenberg, que tudo que possa ser dito sobre o papel econômico da tecnologia esteja reduzido à sua capacidade de aumentar a produtividade e reduzir os custos de produção. Ele destaca um segundo efeito do avanço tecnológico tão importante quanto o de reduzir custos: a introdução de novos produtos e o aprimoramento de sua qualidade. Para este autor, “excluir do progresso técnico a inovação de produtos, especialmente quando se consideram longos períodos históricos, equivale a encenar Hamlet sem o príncipe” (ROSENBERG, 2006, p. 19). Isso complexifica sobremaneira a análise que deixa de ser apenas quantitativa e limitada a produtos que permanecem inalterados.

Entretanto, não se pode desconhecer uma distinção fundamental entre esses dois efeitos do progresso tecnológico na economia: enquanto a redução de custos é algo ativamente buscado, o surgimento de novos ramos e produtos é algo que não pode ser previsto a priori dada a própria natureza da pesquisa científica. Assumimos que o desconhecido se comporta de forma similar ao conhecido, senão a ciência não seria possível, contudo, é justamente pelo fato do desconhecido não ser igual ao conhecido que a ciência é necessária e as surpresas inevitáveis. Se a inovação buscada pode ser antevista na consciência humana é porque a descoberta que permite essa projeção já foi feita no passado e o trabalho agora é de viabilizá-la tornando seus custos factíveis. Quem poderia prever que os professores Andre Geim e Kostya Novosolev da Universidade de Manchester descobririam o grafeno ao usarem fita adesiva para remover flocos de uma placa de grafite? Por outro lado, se não fosse óbvia a importância econômica da pesquisa em torno dos novos materiais, esta universidade não financiaria um Centro de Mesociência e Nanotecnologia onde ambos trabalhavam juntos. O fato é que hoje os laboratórios ao redor do mundo estão explorando o enorme potencial do grafeno, o material mais fino, leve, resistente e maleável conhecido até o momento.

Os resultados da pesquisa em ciência, seja ela de base ou aplicada, transpostos à produção podem resultar em novos produtos e também em novos processos. Kuznets observou que o fato de uma inovação dizer respeito a um produto ou a um processo é algo que depende muito da perspectiva que se adota. Rosenberg concorda e reforça:

As inovações de processo envolvem tipicamente equipamentos ou maquinário novos, nos quais tais inovações estão corporificadas; esse maquinário ou tais equipamentos constituem uma inovação de produto, do ponto de vista da firma que os produz (ROSENBERG, 2006, p. 19).

O autor cita o exemplo do conversor Bessemer, uma espécie de fornalha refratária que permite a produção em massa de aço, reduzindo enormemente o custo da produção. Esta era uma inovação de processo para os fabricantes de ferro e aço, mas uma inovação de produto para os fornecedores de equipamentos para a indústria.

Salvo algumas exceções, como uma nova forma de se fazer um cálculo de cabeça, que pode ser considerado uma tecnologia mental ou uma inovação organizacional, uma nova tecnologia está normalmente associada à construção de uma nova máquina ou à modificação de uma já existente. Mesmo novos programas de computador, que podem ser descritos como uma sequência de instruções lógicas que, por definição, poderiam ser rodados em qualquer máquina universal, na prática, exigem, por conta dos impactos dos limites de recursos nos tempos de execução, uma renovação constante dos equipamentos. Desta forma, a ubiquidade do sistema de máquinas quando falamos em desenvolvimento tecnológico e produção industrial permite que seu processo de conformação nos sirva de roteiro para entendermos as transformações históricas que o desenvolvimento tecnológico operou no capitalismo, a partir do entendimento, na esfera da produção de valor, da máquina como uma categoria econômica subsumida ao conceito de capital, como propões Bevilaqua (2015), mas, também, na esfera da produção de valores de uso, da “história da formação dos órgãos produtivos do homem social”, como reificação do corpo humano (MARX, 1996, l.1, v. 2, p. 8).

A construção das máquinas se torna o elo por excelência entre a ciência e a produção, pois é “a análise originada diretamente da ciência e a aplicação de leis mecânicas e químicas que possibilitam à máquina executar o mesmo trabalho anteriormente executado pelo trabalhador” (MARX, 2011, p. 587).

1Em 13 de junho de 2002, durante o governo Bush, os Estados Unidos se retiraram unilateralmente do Tratado ABM.

A Revolução Neolítica

Caral, local da Revolução Neolítica nos Andes

Se a produção de ferramentas, marco inicial do Paleolítico, está na base do processo de conformação biológica da nossa espécie, e, posteriormente, o surgimento do comportamento simbólico inicia a fase superior desse período, na qual o Homo sapiens (e os extintos neandertais) passam a exibir comportamentos que os distinguem de todos os seus ancestrais chamados de arcaicos, o Neolítico, iniciado há cerca de 11 mil anos, corresponde ao aparecimento da sociedade civil e da política, após a agricultura e a domesticação dos animais levarem à produção de excedente.

A transformação radical na relação entre o homem e a natureza não se limitou, desta vez, à manipulação de objetos inanimados como pedras, metais e madeira: os seres humanos passaram a dominar outras espécies biológicas, principalmente ao controlarem o ciclo reprodutivo dessas. A agricultura é a face mais saliente deste processo, desenvolvida independentemente em pelo menos sete regiões distintas do globo:

Na região do Crescente Fértil foram encontradas evidências de cultivos, entre outros, de cevada, trigo e linho; na China, ocorreu a domesticação do milhete e do arroz; na África foi domesticado o café, o ensete e o khat; em Papua Nova Guiné, o inhame e outros tubérculos; na América Central, iniciou-se a plantação da abóbora, do milho e do feijão; nos Andes foram encontrados vestígios da plantação de batatas e da quinoa, enquanto que no litoral do Peru, na região próxima à antiga cidade de Caral (primeira grande cidade descoberta no continente) se destaca a domesticação do algodão; e, finalmente na Amazônia, na região do alto rio Madeira, berço do tronco linguístico Tupi, foram domesticadas a mandioca, a pupunha, a pimenta, o amendoim, o abacaxi e o guaraná (BEVILAQUA, 2015, p. 249).

Com os dados que dispunha à época, principalmente com base no trabalho de Morgan, Engels analisou em detalhes este processo em sua obra A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Conforme o título evidencia, a revolução tecnológica agrícola e pastoril teve profundas implicações na organização da sociedade humana, sendo destruídas as comunidades baseadas nas gens, conjuntos de famílias, em prol de uma nova organização social baseada na divisão dos seres humanos em classes sociais, definidas a partir da produção e apropriação dos valores de usos.

Além das plantas, neste período foram também domesticados os animais que além de serem meio de transporte criaram o intercâmbio entre distintas comunidades:

Estas tribos pastoris não só produziam víveres em maior quantidade como também em maior variedade do que o resto dos bárbaros. Tinham sobre eles a vantagem de possuir mais leite, lacticínios e carnes; além disso, dispunham de peles, lãs, couros de cabra, fios e tecidos, cuja quantidade aumentava na medida em que aumentava a massa das matérias-primas. Isso tornou possível, pela primeira vez, o intercâmbio regular de produtos (ENGELS, 1964, p. 57).

Completando a domesticação das outras espécies, os seres humanos também passaram a cultivar fungos e bactérias, o que nos deu controle sobre o processo de fermentação e da produção de cremes azedos.

O desenvolvimento tecnológico “tornou a força de trabalho do homem capaz de produzir mais do que o necessário para a sua manutenção”, o que tornou, pela primeira vez conveniente amealhar força de trabalho. Logo, “os prisioneiros foram transformados em escravos”. Assim, “da primeira grande divisão social do trabalho, nasceu a primeira grande divisão da sociedade em duas classes: senhores e escravos, exploradores e explorados” (ENGELS, 1964, p. 57).

No campo da organização humana estão dadas as condições para o surgimento do Estado, em um processo de dissolução da antiga organização gentílica através da consolidação do

o direito paterno, com herança dos haveres pelos filhos, facilitando a acumulação das riquezas na família e tornando esta um poder contrário à gens; a diferenciação de riquezas, repercutindo sobre a constituição social pela formação dos primeiros rudimentos de uma nobreza hereditária e de uma monarquia. (ENGELS, 1964, p. 36).

Com mais pessoas liberadas da produção de alimentos, outros ramos da produção floresceram. Engels chama atenção para dois particularmente importantes “o primeiro é o tear, o segundo é a fundição de minerais e o trabalho com metais fundidos” (ENGELS, 1964, p. 57). Esta lista pode ser estendida com outras invenções que causaram profundos impactos: remos e velas que transformaram a navegação, rodas que permitiram a construção de carros, moedas e outros objetos usados como meio de troca, mós para triturar grãos. Isso sem contar a invenção que talvez seja a mais importante para o desenvolvimento ulterior da ciência: a invenção das proto-escritas, os sistemas simbólicos que antecederam a escrita propriamente dita. É o caso dos símbolos Jihau, um conjunto de 16 signos que foram gravados em carapaças de tartarugas encontradas na província de Henan, na China e datadas como tendo sido feitas no sétimo milênio antes da nossa era, assim como é o caso, também, dos Símbolos Vinča, gravados em artefatos arqueológicos encontrados nos Balcãs e produzidos no sexto milênio antes da nossa era.

Ainda que os pesquisadores não considerem esses símbolos como um sistema acabado de escrita, pois, apesar dos mesmos serem constituídos de ideogramas ou pictogramas que carregam informação, provavelmente não codificavam nenhuma linguagem natural, estes são as bases para o surgimento, na Idade do Bronze, período imediatamente posterior ao Neolítico, da escrita, o que ocorreu de forma independente entre os sumérios, os egípcios, os chineses e os olmecas. Só então a codificação de enunciados passou a ser feita de forma que um leitor pudesse reconstruí-los, com um certo grau de precisão, sem precisar conhecer antecipadamente o contexto no qual o texto foi produzido, diferentemente do caso das proto-escritas, que, a exemplo das pinturas rupestres do Paleolítico, provavelmente nunca serão decifradas.

O desenvolvimento da escrita, compreendido de forma mais global desde as primeiras manifestações simbólicas, permitiu que a transmissão de conhecimento pudesse atingir um patamar muito superior ao da mera oralidade, tornando-se, a partir da imprensa de Gutemberg, uma condição sine qua non para o surgimento da revolução científica.

Concluindo esta digressão sobre o Neolítico, cabe notar sua característica de elo entre a revolução paleolítica que o antecedeu em alguns milhões de anos, e a revolução industrial que o sucedeu apenas 10 mil anos depois. Se este pode ser considerado um processo similar à primeira, no que diz respeito ao papel do desenvolvimento tecnológico na transformação do processo de trabalho e em todas as mudanças que isso acarretou para a existência humana, por outro lado, o surgimento das classes sociais que teve como pré-requisito o acúmulo de excedentes, lança luz sobre a transformação que a revolução industrial pode suscitar, tornando anacrônicas as classes sociais através de uma nova qualidade na produção de excedentes. Contudo, nunca é demais frisar que tanto o surgimento das classes sociais no Neolítico quanto a possibilidade de sua superação no capitalismo, modo de produção que simplificou e elevou esse antagonismo ao paroxismo, não se deram por uma simples consequência mecânica do desenvolvimento das forças produtivas, mas sim mediados por conflituosas relações humanas, logo sociais e políticas, batizadas de luta de classes pelos socialistas do século XIX.

Justamente o fato do desenvolvimento das forças produtivas ser ao mesmo tempo causa e consequência das relações sociais é que permite reunificar, na análise do modo de produção capitalista, o processo de produção de valor de uso e o processo de produção de valor, não apenas das mercadorias em geral, mas também da produção científica em especial.

O paleolítico e nossa criação a partir do trabalho

Podemos afirmar que o Paleolítico, periodização utilizada para definir a pré-história tecnológica humana, antecede e está na base do surgimento da nossa espécie biológica, resultado de milhões de anos de uso de ferramentas pelos primatas. Desta forma, nem a comunidade humana, nem sua sucessora neolítica, a sociedade de classes, como complexos dinâmicos de relações sociais entre homens e mulheres, podem ser compreendidas se nos restringirmos apenas à história do homo sapiens, a partir do processo de especiação que nos distinguiu de algumas variações do homo erectus há centenas de milhares de anos.

Há algumas décadas, as descobertas paleontológicas identificam em hominídios já extintos, do gênero Homo ou não e que fazem ou não parte da nossa linha de ascendência, características que até então julgávamos únicas à nossa espécie, como a capacidade de confeccionar ferramentas. O desenvolvimento cognitivo deses hominídios arcaicos vem sendo revisto à luz do papel destas ferramentas no trabalho e da necessária capacidade teleológica para se projetar e construir estas extensões do nosso corpo.

Existe abundante registro do uso de ferramentas no paleolítico inferior, iniciado há 2,6 milhões de anos atrás, um período 40 vezes mais antigo que as primeiras pinturas rupestres. Mais recentemente, o uso comprovado de ferramentas recuou cerca de 700 mil anos do previamente estipulado, com a publicação, em maio de 2015, na capa da Revista Nature, do artigo de Sonia Harmand e seus colegas, no qual relatam a descoberta de ferramentas líticas no sítio Lomekwi, no Quênia, com 3,3 milhões de anos. Como se tratam de artefatos dificilmente diferenciáveis aos olhos leigos de outros produzidos por fenômenos naturais, a ciência arqueológica superou diversas polêmicas aprimorando as técnicas necessárias para distingui-los e datá-los. Por isso, existe pouca disputa em torno dos achados de Lomekwi: a datação das cinzas vulcânicas no depósito de sedimentos no qual foi encontrado o conjunto de instrumentos, conformado por lascas, núcleos (de onde as lascas são separadas) e percutores (pedras usadas de forma ativa ou passiva como bigorna), foi obtida de uma forma muita precisa, usando-se técnicas de datação paleomagnéticas. Como o padrão de sedimentação dessas cinzas ao longo dos milênios é influenciado pela localização dos polos magnéticos, e as inversões destes ao longo da história são conhecidas e datadas, torna-se possível utilizá-las como um marcador de tempo.

Destarte, mesmo com a recente descoberta do fóssil de uma mandíbula no lago Ledi-Geraru, na Etiópia, cuja datação radiométrica o converteu no exemplar mais antigo de um representante do gênero Homo descoberto até o momento, com 2,8 milhões de anos (VILLMOARE, 2015), tornou-se difícil contra-argumentar a visão de que a produção de ferramentas precede o gênerodo qual fazemos parte em centenas de milhares de anos, remontando aos Australopithecus.

Este é o gênero de Lucy, uma das únicas descobertas de um fóssil de hominídio completo com esta idade, ao qual se junta agora um segundo esqueleto, revelado em dezembro de 2017, o Little Foot. Estas descobertas, nas quais foi preservada a anatomia completa dos esqueletos daqueles indivíduos, são extremamente raras, muitas espécies são descritas com base em fragmentos de poucos centímetros. A descoberta de Lucy em 1974 e a descoberta, no mesmo ano, de pegadas que australopitecíneos deixaram sobre cinzas vulcânicas nos permitiram estabelecer sem controvérsia que essas eram criaturas bípedes.

Conforme Gould descreveu em seu ensaio Posture maketh the man, os australopitecíneos que produziram essas ferramentas não se encaixavam nas noções preconcebidas de como “um elo perdido deveria se parecer”, o que levou, por muito tempo, vários cientistas a “se recusarem a aceitá-los como membros bona fide da nossa linhagem” (GOULD, 1995B). Eles esperavam uma transformação harmoniosa e linear do primata ao homem, impulsionada por um aumento da inteligência. O fato é que os australopitecíneos, com uma caixa craniana de volume similar à dos chimpanzés, com cerca de 400 cm³, já adotavam uma postura totalmente ereta ao caminhar, e fabricavam ferramentas1.

A maior parcela do nosso desenvolvimento cerebral, até chegar aos nossos atuais 1450 cm³ de volume da caixa craniana, ocorreu após a fase dos australopitecíneos. Por isso não faz sentindo a visão de que nossa evolução foi dirigida por um aumento do cérebro, como acreditava o famoso embriologista Karl Ernst von Baer, que escreveu em 1828 “A postura ereta é apenas a consequência do desenvolvimento do cérebro” (BAER apud GOULD, 1995B).

Essa posição, em uma época em que as evidências acumuladas não podiam ainda decidir a questão, era puramente ideológica, afinal, com exceção dos neandertais, os primeiros fósseis de hominídios foram descritos apenas no final do século XIX. Isso foi percebido por Engels, que afirmou:

Em face de todas essas imagens [leis, religião, arte, etc.], que aparentavam, em primeiro lugar, ser produtos da mente e pareciam dominar as sociedades humanas, as produções mais modestas da mão trabalhadora recuaram para o segundo plano, ainda porque a mente que planejava o trabalho era capaz, em um estágio muito precoce no desenvolvimento da sociedade (por exemplo, já na família primitiva), a ter o trabalho que havia sido planejado feito por outras mãos do que as suas próprias. Todo o mérito do rápido avanço da civilização foi atribuído à mente, ao desenvolvimento e atividade do cérebro. Os homens se acostumaram a explicar suas ações como decorrentes do pensamento em vez de suas necessidades (que de qualquer modo são refletidas e percebidas na mente); e, com o passar do tempo, emergiu essa visão mundial idealista que, especialmente desde a queda do mundo da antiguidade, dominou a mente dos homens. Ainda os governa ao ponto de que até mesmo os cientistas naturais mais materialistas da escola darwiniana ainda não conseguiram formar uma ideia clara da origem do homem, porque, sob essa influência ideológica, não reconhecem o papel desempenhado nesta pelo trabalho (ENGELS, 2010A, p. 452, tradução nossa).

Até o momento, as evidências que temos sugerem que o bipedismo é anterior à fabricação de ferramentas e nos garantem que esta é muito anterior ao processo de crescimento do volume ocupado pelo cérebro. Hoje, com o registro fóssil enriquecido com milhares de espécimes, aceita-se que “o cérebro não pode começar a crescer no vácuo. Um primeiro ímpeto deve ser propiciado por uma alteração no modo de vida que coloque um bônus seletivo forte na inteligência. A postura ereta libera as mãos para a locomoção e para a manipulação” (GOULD, 1995B).

Engels, enriquece assim a observação de Anaximandro de que o ser humano é mais inteligente que o restante dos animais porque têm mãos, o que, como vimos, foi posteriormente comprovado pelo registro fóssil:

a mão não é apenas o órgão do trabalho, é também produto do trabalho. Somente através do trabalho, por adaptação a operações sempre novas, (…) pelo emprego sempre renovado desses avanços herdados em novas e cada vez mais complicadas operações, pode a mão humana atingir o alto grau de perfeição necessário para conjurar as imagens de um Raphael, as estátuas de um Thorwaldsen, a música de um Paganini. (ENGELS, 2010A, p. 454, tradução nossa)

Engels também adiantou o argumento, retomado recentemente, ainda que sem menção ao seu nome, pela neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, em livro publicado em 2016, intitulado A vantagem humana: como nosso cérebro se tornou superpoderoso‎, em torno do impacto da mudança de dieta no desenvolvimento do cérebro, passando a incluir proteínas animais com a invenção das ferramentas de caça e também, mais recentemente, com a aplicação do fogo sobre os alimentos:

A dieta carnívora, no entanto, teve o seu maior efeito no cérebro, que passou a receber um fluxo muito mais rico dos materiais necessários para sua alimentação e desenvolvimento, permitindo-o portanto, se desenvolver de forma mais rápida e perfeita de geração em geração (…) [o domínio do fogo] encurtou ainda mais o processo digestivo, pois levava à boca comida que já estava meio digerida (ENGELS, 2010A, p. 455, tradução nossa).

A transição do Australopithecus ao gênero Homo, cujas espécies mais antigas que conhecemos até o momento são o Homo habilis e o Homo rudolfensis (ainda que alguns classifiquem o último como uma variação do primeiro), está associada à tradição de indústria lítica Olduvaiense, a mais antiga conhecida até a recente descoberta de Lomekwi. São ferramentas simples, também conhecidas como seixos talhados. A fabricação de uma ferramenta olduvaiense era obtida através de golpes feitos com uma pedra esférica (normalmente seixos obtidos nos cursos d’água) contra a ponta de uma outra pedra, que poderia ser de quartzo, basalto ou obsidiana, o que a fratura formando uma face afiada em um processo conhecido como redução lítica.

Durante o paleolítico, que durou 2,5 milhões de anos, o gênero Homo se diversificou e floresceram diversas espécies de hominídeos. Neste ínterim, ocorreram novas revoluções tecnológicas, como a produção de ferramentas líticas mais complexas, conhecidas como indústria acheuliana, que remonta a pelo menos 1,7 milhão de anos, sendo caracterizada por certo tipo de utensílios bifaces de pedra, no qual uma grande lasca era produzida e depois afiada com lascamentos menores e mais precisos, produzindo machadinhas. Estas foram produzidas pelo próprio Homo habilis (que significa homem habilidoso), mas de forma mais desenvolvida pelo Homo ergaster (que significa homem trabalhador) e pelo Homo erectus.

Além da indústria lítica, o paleolítico, principalmente sua fase superior, viu muitas outras transformações tecnológicas que permitiram que o Homo sapiens, e em alguns casos seus ancestrais, se espalhassem por todo o globo. Conforme listou Bevilaqua (2015, p. 248), são desse período as descobertas e invenções da “linguagem, o domínio sobre o fogo, a construção de abrigos, as roupas, as lanças, os arcos, as balsas, as redes, as representações pictóricas, os pigmentos, as flautas, a cerâmica, a domesticação dos cães, o curtimento do couro, os primeiros calendários, entre outras”.

Quais dessas descobertas foram feitas pelo Homo sapiens, e quais foram feitas pelas espécies que o antecederam ainda está em aberto. Uma nova datação realizada em crostas de carbonato que cobrem pinturas rupestres em pelo menos três cavernas da Espanha, forçaram a reavaliação acerca do excepcionalismo de nossa espécie em trabalhar com linguagem simbólica, ao indicarem que estas manifestações artísticas foram produzidas há mais de 64 mil anos, ou seja, quando os neandertais viviam naquela região, mas pelo menos 20 mil anos antes da data na qual acredita-se que nossa espécie adentrou o continente europeu. Para os autores:

A arte na caverna compreende principalmente pinturas pretas e vermelhas e inclui a representação de diversos animais, signos lineares, formas geométricas, estêncil de mãos e impressões de mãos. Destarte, os Neandertais possuíam um comportamento simbólico mais rico do que previamente pensado. (HOFFMANN, 2018).

Hoje se sabe, através da análise genética, que os neandertais, assim como outra espécie de homínidos, os denisovanos2, se miscigenaram com os Homo sapiens, o que faz deles nossos ancestrais e indica a existência de uma complexa interação, e até de colaboração cultural entre essas diferentes espécies (CALLAWAY, 2016). Com isso foi alterada a percepção acerca da complexidade cultural dos neandertais, antes vistos como intelectualmente inferiores aos Homo sapiens, o que era tido como determinante para sua extinção em um processo de competição por recursos entre ambas as espécies.

Atualmente, já não se pode afirmar com segurança quem, se os neandertais3 ou os humanos de então, tinha o comportamento mais complexo e maior capacidade cognitiva. Na verdade, apesar dos humanos anatomicamente modernos, esqueleticamente idênticos a nós, terem surgido há 200 mil anos, até o Paleolítico Superior, há 50 mil anos, período no qual inicia-se a chamada Revolução Criativa, à qual corresponde uma grande diversificação de artefatos encontrados, nosso comportamento não parece ter se diferenciado muito dos humanos arcaicos.

Enquanto o desenvolvimento ideológico mais complexo é exclusividade do gênero Homo, com alguns comportamentos remontando ao Homo erectus, historicamente, como vimos, a produção de ferramentas não é exclusividade deste gênero, o que é corroborado por observações contemporâneas entre as espécies de primatas não humanos atualmente existentes. A lacuna pelo fato de sermos a única espécie extante de uma árvore de diversos hominídeos pode ser cotejada com a descrição da utilização de ferramentas por outras espécies de primatas não hominídeos.

Além da utilização de ferramentas pelos chimpanzés, estudada desde o trabalho pioneiro de Jane Goodall há mais de 50 anos, sabe-se hoje que, pelo menos os macacos pregos dentre os primatas do Novo Mundo, como são conhecidas as espécies pertencentes ao clado que aglutina os símios do continente americano, também utilizam ferramentas de pedra como observou e publicou a equipe dos pesquisadores Eduardo Ottoni, Tiago Falótico e Patrícia Izar do Instituto de Psicologia da USP. As ferramentas líticas são ubíquas entre os macacos-pregos, todos os grupos observados as utilizam para quebrar nozes, que são colocadas sobre uma pedra grande usada como bigorna e golpeadas com pedras menores, dando-lhe acesso à parte comestível.

Em uma publicação recente na Nature, em conjunto com acadêmicos de Oxford, os pesquisadores da USP documentaram inclusive a produção de pedras lascadas pelos macacos-pregos, o que, na palavra dos autores “adiciona uma nova dimensão às interpretações do registro paleolítico humano, a possível função das primeiras ferramentas líticas e os requisitos cognitivos para a emergência da lascagem de pedras” (PROFFITT, 2016). Marx foi um dos primeiros a chamar atenção para a relevância desse tipo de estudo: “A mesma importância que as relíquias de ossos têm para o conhecimento da organização das espécies de animais extintas têm também as relíquias de meios de trabalho para a compreensão de formações socioeconômicas extintas” (MARX, 1988, Livro I, p. 329).

Apesar da sofisticação deste comportamento, que envolve a secagem das nozes para amolecê-las, diferentemente da tradição olduvaiense dos humanos arcaicos, esses macacos não alteram essas pedras, nem utilizam as lascas, que são descartadas como subproduto deste processo. Aqui reside uma diferença, no uso de ferramentas entre os seres humanos e os demais animais, que não passou despercebida por Marx, que notou que “O uso e a criação de meios de trabalho, embora em germe em certas espécies de animais, é uma característica específica do processo de trabalho humano, razão pela qual Franklin define o homem como ‘a toolmaking animal‘, um animal que faz ferramentas” (MARX, 1988, Livro I, p. 329). O fato dos macacos, assim como outras espécies, utilizarem elementos de seu meio para sobrevivência, não faz dessa utilização um tipo de criação de ferramentas, no mesmo sentido que esta atividade tem para os seres humanos. A ferramenta é resultado de desenvolvimento e de uma organização social, que também tem a ver com o caráter teleológico dessa criação. É necessário um gênero social para que as ferramentas se desenvolvam como produto do processo de objetivação humana através do trabalho e, mais tarde, surja a divisão do trabalho.

Mas, esses dados nos servem de indícios de que o uso de ferramentas em geral pelos hominídios possa ser mais antigo que os registros que temos. Ainda mais se considerarmos que outros materiais como madeira e osso também eram transformados em ferramentas, mas, como estes não se conservam com a mesma facilidade que as rochas, as ferramentas líticas são apenas as mais antigas das quais temos registro arqueológico.

Chimpanzés, assim como os orangotangos, bonobos e gorilas, utilizam abundantemente ferramentas feitas de plantas, o que segundo Michael Haslam da Universidade de Oxford, líder do projeto de arqueologia primata, talvez tenha a ver com o fato de que “plantas são ubíquas nos habitats dos primatas, mas as pedras não”. (BARRAS, 2015). A descoberta de ferramentas produzidas por chimpanzés nos sítios Panin na Costa do Marfim, datadas em 4.300 anos, ou seja, anterior à sedentarização agrícola humana nesta região, “sugerem que a cultura material percussiva poderia ter sido herdada de um clado comum entre os chimpanzés e os seres humanos” (MERCADER, 2007). De acordo com esta hipótese, que ainda é bastante discutível, o uso de ferramentas deveria ser então anterior a 7 milhões de anos atrás quando viveu o nosso provável ancestral em comum com os chimpanzés . Isso reforça a proposta de inclusão do gênero Pan, que inclui os chimpanzés e os bonobos na tribo4 dos Hominini. Contudo, pelas observações realizadas, nem todas as comunidades de chimpanzés utilizam ferramentas líticas, apenas algumas comunidades do ocidente da África, o que é um argumento para que esse uso tenha se originado após a separação destas populações de chimpanzé das populações do restante do continente, algo muito mais recente, ocorrido entre 1 milhão e 500 mil anos atrás.

Essa digressão acerca da conformação da nossa espécie, e do nosso papel e do trabalho como categoria ontocriativa do nosso ser social tem como objetivo chamar atenção para a contribuição de Marx e Engels na superação do ponto de vista idealista e religioso para o qual o nosso intelecto comprovaria sermos produto de um criador consciente, que nos fez a sua imagem e semelhança. Essa visão, apesar dos reparos feitos pelos defensores do livre-arbítrio, invariavelmente leva à ideia de povo escolhido, a tribo de Davi, e à necessária subordinação dos outros povos aos representantes de deus na terra.

Outra visão surgida no século XIX, que também se contrapôs à visão religiosa, mas que, a exemplo desta, serviu para justificar os interesses das classes dominantes é a ideia de seleção natural como base de explicação da dominação do homem pelo homem, a partir da interpretação racista de Francis Galton do trabalho de seu primo Charles Darwin. Novamente esta visão é explicada e superada pelo marxismo, que frisa o caráter social da existência humana e da construção da igualdade, a partir da luta histórica pela superação das classes sociais, origem das desigualdades históricas entre os seres humanos.

1Os chimpanzés apesar de poderem se sustentar sobre os dois membros inferiores são considerados quadrúpedes, pois normalmente caminham apoiando-se nos nós dos dedos.

2Dos denisovanos conhecemos apenas alguns dentes, pedaços de mandíbula e uma falange de um dedo encontrados em uma caverna na Sibéria. Contudo, desta falange, que foi destruída no processo, pôde ser extraído DNA extremamente bem preservado, cujo sequenciamento surpreendeu o mundo, ao apontar que o indivíduo não era nem homo sapiens e nem neandertal e que alguns de seus genes estão presentes nas modernas populações de melanésios, aborígenes australianos e mesmo nos tibetanos (regiões distantes da Sibéria), o que demonstra que a história de nossa especiação, e nossa relação com outras espécies próximas é muito mais complexa do que previamente imaginado.

3Curiosamente os neandertais são os hominídios com o maior volume de caixa craniana, 1.740cm³. O segundo lugar é do homo sapiens com cerca de 1.500cm³.

4Tribo aqui se refere ao nível taxonômico da classificação de Lineu que agrupa diferentes gêneros de uma mesma família, ou subfamília.

As Revoluções do Neolítico, do Paleolítico e Industrial

Como já afirmamos, a identidade entre revolução industrial e capitalismo não permite afirmar que os avanços técnicos tenham sido inaugurados com este modo de produção. Como lembra Santos, um certo grau de desenvolvimento das forças produtivas já é um pré-requisito para o surgimento deste:

O modo de produção capitalista surge num estágio bastante elevado da luta do homem para submeter a natureza. De fato, este modo de produção surge como consequência do alto desenvolvimento das forças produtivas devido à expansão das indústrias e do comércio mundial (SANTOS, 1983, p. 11)

Esta correspondência entre revolução industrial e capitalismo pressupõe apenas “um novo patamar da relação entre o homem e a natureza, de forma análoga à objetivação do corpo humano nas ferramentas produzidas desde o paleolítico” (BEVILAQUA, 2015, p. 251).

Engels, ao mesmo tempo que reconhece a importância da revolução industrial e seu significado dentro da luta de classes, logo seus aspectos econômicos, políticos, sociais e culturais, demonstra também o outro lado do processo de ruptura, a continuidade da mudança tecnológica ao longo da história da humanidade, inclusive no período que antecedeu a conformação das classes sociais, remontando à constituição da nossa espécie, como explica o título da sua obra, inacabada e publicada postumamente, O papel do trabalho na transformação do macaco em homem, na qual podemos ler que “[o trabalho] é a condição básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem”. (ENGELS, 2010A, p. 452). Na linha de Engels, Álvaro Vieira Pinto, em obra também publicada postumamente, O Conceito de Tecnologia, critica a expressão “era tecnológica” para descrever o período contemporâneo. Para ele, se tratava de uma construção ideológica apologética do sistema, para “embriagar a consciência das massas, fazendo-as crer que tem a felicidade de viver nos melhores tempos jamais desfrutados pela humanidade” (PINTO, 2005, p. 41). Isso em um mundo no qual o domínio da tecnologia encontra-se nos centros imperialistas, cabendo ao mundo periférico a condição de paciente receptor das inovações técnicas. Em sua formulação, Pinto nota que no processo de sua constituição, os seres humanos adquirem a capacidade de projetar (teleologia), ao mesmo tempo em que convertem em seres sociais, algo necessário à produção do que foi projetado. Acompanha-o Frigotto (2006), para quem “o trabalho é a categoria ‘ontocriativa’ da vida humana, e o conhecimento, a ciência, a técnica e a tecnologia e a própria cultura são mediações produzidas pelo trabalho na relação entre os seres humanos e os meios de vida”.

Não é possível falar em trabalho em falar sem desenvolvimento da técnica, afinal, como também nota Engels (2010a, p. 452), “O trabalho começa com a elaboração de instrumentos”, ou seja, também podemos definir o ser humano por sua capacidade tecnológica.

Para ROSENBERG (2006, p. 17),

[…] num sentido fundamental, a história do progresso técnico é inseparável da história da própria civilização, na medida em que trata dos esforços da humanidade para aumentar a produtividade sob uma gama extremamente diversificada de condições ambientais.

Desta forma, a Revolução Industrial pode ser colocada em uma perspectiva ainda maior, de conformação e transformação da existência humana a partir do trabalho, perfilando-se ao lado de dois outros grandes processos revolucionários muitas vezes olvidados, as revoluções do Paleolítico e do Neolítico.

O desenvolvimento tecnológico e o processo de produção

Desenvolvimento tecnológico não é idêntico a desenvolvimento científico, apesar da crescente organicidade entre ambos durante o capitalismo ao ponto de Rosa (2006, p. 13) definir a ciência contemporânea como tecnociência, um termo originário da abordagem construtivista, que “significa a junção da ciência com a tecnologia dela derivada e que retroativamente a alimenta”.

Exemplo desse entrelaçamento é o fato de que atualmente apenas uma pequena parte da produção científica é realizada sem o uso de complexos instrumentos tecnológicos. Contudo, existem diferenças históricas e lógicas entre ambos os processos de acúmulo de conhecimento e entre suas respectivas instituições.

Ao longo do século XX debateu-se o quanto o início do processo de industrialização deve-se à aplicação sistemática da ciência moderna à produção. A relação direta entre a ciência e o progresso técnico, que hoje consiste num verdadeiro truísmo, não é tão evidente quando nos focamos nos primórdios da Revolução Industrial. O debate é bastante matizado, como relata Rosenberg (2006): Musson e Robson em seu livro Science and Technology in the Industrial Revolution ressaltam a dependência que o progresso técnico teve com a ciência no período da Revolução Industrial a partir da apresentação de abundante evidência dos canais que ligavam os cientistas aos homens de negócio. Esta é também a posição de Rostow. Mas, do lado oposto, estão numerosos historiadores da tecnologia que ressaltam a importância da tentativa e erro1 e de um exercício paciente de empirismo como Usher, Landes e Gilfillan. Hall, por exemplo, afirma que não existem evidências que liguem o desenvolvimento anterior a 1760 à erudição ou à educação formal (ROSENBERG, 2006). Neste caso, faz diferença a opção por um conceito mais estrito de ciência, definida como corpo de conhecimento consistentemente integrado em uma estrutura teórica, ou por um conceito mais amplo que abrange a mudança de procedimentos e atitudes perante os métodos experimentais. Um alto grau de originalidade científica não parece ter sido uma condição necessária para o dinamismo tecnológico (ROSENBERG, 2006). Na Inglaterra parece ter sido um pouco diferente, pelo menos Schofield aventou a hipótese de que as sociedades científicas provinciais, como a Lunar Society de Birmingham propiciavam um relacionamento estreito entre os cientistas e o setor produtivo.

Marx nos Grundrisse antecipa a conclusão que historiadores econômicos levaram mais de um século para assentar, de que “o desenvolvimento da maquinaria por essa via [aplicação sistemática da ciência] só ocorre quando a grande indústria já atingiu um estágio mais elevado e o conjunto das ciências já se encontra cativo a serviço do capital”, ou seja, “esta não é a via que deu origem à maquinaria no geral, e menos ainda a via pela qual ela avança em particular”. A via original de desenvolvimento do sistema de máquinas para Marx “é a análise – pela divisão do trabalho, que transforma as operações dos trabalhadores cada vez mais em operações mecânicas, de tal modo que a certa altura o mecanismo pode ocupar os seus lugares” (MARX, 2011, p. 587). A construção das primeiras máquinas é consequência da especialização do trabalho artesanal, uma característica da manufatura medieval, pois “é justamente porque a habilidade artesanal permanece como a base do processo de produção que cada trabalhador passa a dedicar-se exclusivamente a uma função parcial, e sua força de trabalho é então transformada em órgão vitalício dessa função parcial” (MARX, 1996, l. 1, v. 1, p. 455). Marx embasou suas conclusões em um profundo estudo sobre a história da tecnologia, que ficou registrado em anotações que foram batizadas de Cadernos de Marx sobre a História da Tecnologia. Este material, que nunca foi publicado, chegou a ser consultado no passado, mas no momento sua localização não é conhecida publicamente2. Em uma carta a Engels, na qual Marx se refere a essas anotações, ele também relata ter participado de um curso prático experimental sobre o tema.

O conhecimento obtido acerca do desenvolvimento, ao longo da história, do processo de trabalho permitiu que Marx o distinguisse conceitualmente do processo de produção de valor, enfatizando assim a utilidade de se refletir acerca do “processo de trabalho independentemente de qualquer forma social determinada” (MARX, 1996, l. 1, v. 1, p. 297). Desta ótica, o processo de trabalho é a mediação entre os seres humanos e a natureza que resulta na transformação de ambos:

Ele [o ser humano] põe em movimento as forças naturais pertencentes a sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a Natureza externa a ele e ao modificá-la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. (MARX, 1996, l. 1, v. 1, p. 297).

O entendimento de que o desenvolvimento das forças produtivas é o próprio desenvolvimento da relação entre os seres humanos e a natureza não permite imputar a Marx uma concepção determinista tecnológica da história humana, pois como bem frisa Bevilaqua:

no conceito de forças produtivas está a expressão reificada das classes sociais, logo, as relações de produção, que derivam destas, e que expressam tanto o seu desenvolvimento material, quanto intelectual, condensados em sua atividade prática, interesses imediatos e futuros; portanto, a luta de classes, consequentemente o fundamento histórico de todas as transformações revolucionárias na sociedade humana; seja nas relações de produção, seja nas formas ideológicas, jurídicas e políticas, com que toma consciência das contradições da vida material e chega às últimas consequências para resolvê-las (BEVILAQUA, 2015, p. 250).

Analisando o processo de produção desde o surgimento do humano como ser social, podemos traçar uma linha de continuidade entre o desenvolvimento empírico que se iniciou na pré-história com a fabricação das primeiras ferramentas como extensão do corpo humano, que será objeto da digressão do próximo subcapítulo, e a especialização do trabalho artesanal que permitiu a posterior criação das máquinas como órgãos da produção.

1Um exemplo, já no século XX, é o de Santos Dummont, normalmente apresentado como inventor e quase nunca como cientista, o que coincide com seu método eminentemente experimental que o fez voar sem que ele precisasse resolver as equações de Navier-Stokes que descrevem o escoamento de fluídos. Isso levou Einstein a se indagar em 1916 sobre a causa da sustentação das asas de “nossas aves e máquinas voadoras”, afirmando haver “uma falta de clareza em geral sobre esta questão” (STUDART, 2006).

2Existe a expectativa que estes façam parte da terceira coleção de suas obras completas, conhecidas pelo acrônimo MEGA (Marx-Engels-Gesamtausgabe), que terá cerca de 114 volumes, sendo que até agora já foram publicados 65. Pelo plano divulgado, serão ainda publicados 32 volumes apenas de excertos, notas e anotações marginais, a grande maioria dos quais permanece inédita.

O quão revolucionária foi a Revolução Industrial?

Se a existência da Revolução Industrial é, hoje, quiça, um dos grandes pontos de concordância entre historiadores e economistas, o significado desse processo e o estabelecimento dos seus marcos temporais são objeto das mais diversas interpretações. Hobsbawn, por exemplo, considera que este “não foi um episódio com um princípio e um fim. Não tem sentido perguntar quando se ‘completou’, pois sua essência foi a de que a mudança revolucionária se tornou norma deste então. Ela ainda prossegue” (HOBSBAWM, 1997). O termo Révolution Industrielle, como nota GRIFFIN, foi muito provavelmente cunhado “na França, no início do século dezenove, por economistas políticos impressionados com os tremendos avanços econômicos e sociais que haviam sido recentemente obtidos do outro lado do Canal”. Tratava-se de uma analogia com a Revolução Francesa, da qual a Revolução Industrial seria a contraparte econômica, antecedendo-a em cerca de meio século (GRIFFIN, 2007, p. ???). A correspondência entre ambas, e também com a revolução filosófica alemã, foi analisada por Engels, autor responsável pelo desenvolvimento pleno do termo Revolução Industrial em uma categoria científica, em sua obra seminal A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra:

A revolução industrial teve para a Inglaterra a mesma importância que a revolução política teve para a França e filosófica para a Alemanha a, e a distância que separa a Inglaterra de 1760 da Inglaterra de 1844 é pelo menos tão grande quanto aquela que separa a França do Antigo Regime da França da Revolução de Julho. O fruto mais importante dessa revolução industrial, porém, é o proletariado inglês (ENGELS, 2008).

Este livro de Engels, escrito entre 1842 e 1844 durante sua estada em Manchester e publicado em Leipzig, foi traduzido do alemão ao inglês apenas em 1885, para uma edição estadunidense publicada no ano seguinte em Nova Iorque. O termo Revolução Industrial só passou a ser amplamente usado na língua do país em que este processo se originou após a publicação póstuma das Aulas sobre a Revolução Industrial Inglesa do historiador e reformador social Arnold Toynbee (GRIFFIN, 2013). Não se sabe se Toynbee conhecia o trabalho de Engels, pois ele morre antes da tradução inglesa do mesmo, mas seu relato guarda semelhanças com o trabalho do filósofo prussiano, inclusive na denúncia das mazelas dos trabalhadores pobres resultantes deste processo.

A não utilização do termo Revolução Industrial pelos acadêmicos britânicos do século XIX não quer dizer que estes não tenham expressado por diversas vezes a consciência da superioridade do desenvolvimento industrial da Inglaterra, que em meados do século XIX era indubitavelmente a nação mais rica do mundo. A Grande Exposição de 1851 no Palácio de Cristal, erguido para este fim no Hyde Park, que reuniu mais de 6 milhões de pessoas durante os poucos mais de cinco meses em que esteve aberta, foi um ode ao desenvolvimento industrial dos países convidados, mas mormente uma apologia à supremacia industrial britânica.

Segundo GRIFFIN, a partir do fim do século XIX, como um pêndulo, a posição dos acadêmicos sobre este fenômeno histórico oscilou entre a afirmação e o revisionismo do mesmo. Se a afirmação da Revolução Industrial leva à divisão do mundo em um antes e um depois da transformação da indústria têxtil localizada na região sul do condado de Lancashire, onde ficavam as cidades inglesas de Manchester e Liverpool, seu revisionismo consiste em questionar até que ponto este foi mesmo tão revolucionário, ou seja, se se tratava de um processo suis generis ou de apenas mais um episódio de uma série de ciclos longos de prosperidade e desenvolvimento. Schumpeter1, por exemplo, referiu-se a:

aquelas ondas longas2 na atividade econômica, cuja análise revela a natureza e o mecanismo do processo capitalista melhor do que qualquer outra coisa. Cada uma deles consiste em uma revolução industrial e na absorção de seus efeitos. (SCHUMPETER, 2010, tradução nossa)

Griffin nota que o questionamento da Revolução Industrial como fato histórico singular e excepcional prosperou inicialmente no período que vai do início da crise da década de 1920, até o fim da depressão, já nos últimos anos da guerra.

Depois, no pós-guerra, o pêndulo do debate voltou para o lado dos que veem na Revolução Industrial iniciada na Inglaterra um divisor de águas: o início de um processo exponencial de desenvolvimento econômico, e também, por muito tempo, de crescimento populacional. Essa mudança de percepção nos historiadores do pós-guerra certamente foi favorecida pelo boom econômico que estes experimentavam em vida, com a reconstrução do continente europeu e a difusão das tecnologias criadas no contexto militar.

Para Eric Hobsbawm, o mais reconhecido historiador britânico a despontar neste período, “a Revolução Industrial marca a mais fundamental transformação da vida humana na história do mundo registrada em documentos escritos” (HOBSBAWM, 1999, tradução nossa). Mas, segundo Griffin, já no final dos anos 1970, período no qual novas crises se manifestam, ganha renovado impulso a negação da importância atribuída à Revolução Industrial, principalmente a partir de parte dos historiadores que se utilizaram de ferramentas econômicas e estatísticas para empreender uma reavaliação do ritmo e da extensão com os quais os diferentes setores da indústria foram sendo transformados, através da quantificação de métricas como produtividade, produto interno bruto e volume de exportações das nações envolvidas.

Diversos historiadores econômicos tomaram partido neste debate. Strassmann, por exemplo, refuta o caráter central da destruição criadora de Schumpeter, ao mostrar como, entre 1850 e 1914, tecnologias novas e antigas coexistiram por várias décadas. Gilfillan em seu livro Inventing the Ship enfatizou o caráter perene do desenvolvimento do progresso técnico, “uma contínua adição de inúmeras pequenas melhorias, com somente muito raras inovações de grande porte”. Para exemplificar, ele expõe a evolução dos motores náuticos, uma lenta sequência de incrementos no tamanho e na resistência das caldeiras (GILFILLAN apud ROSENBERG, 2006). Fishlow notou algo semelhante no projeto das locomotivas e dos vagões de carga, que triplicaram seu volume entre 1870 e 1910 através de sucessivas melhoras sem “qualquer invenção memorável ou facilmente identificável”. Hollander conclui em seu estudo da eficiência das fábricas Duopont que as pequenas mudanças técnicas tiveram mais impacto na redução de custos que as grandes (ROSENBERG, 2006). Neste contexto, o trabalho de Craft (1985) torna-se influente por apresentar uma estimativa das taxas de crescimento econômico entre 1770 e 1830 que indicavam um ritmo muito menor do que o previamente assumido. Como em toda polêmica que envolve estatística, o método e os dados de Craft foram questionados e revisados de diversos ângulos, o que levou à relativização de sua descoberta, sem que isso permitisse um retorno às estimativas anteriores de crescimento.

Muitos historiadores ponderaram, então, que a simples mensuração dessas métricas econômicas não é suficiente para desvelar um processo histórico tão complexo, que certamente não se manifestou homogeneamente em todos os ramos da economia. Fazê-lo seria incorrer em um problema metodológico de mau uso do reducionismo. Com isso, e acompanhando um movimento geral da historiografia, o foco do debate mudou e passou a explorar as significativas mudanças sociais e culturais gestadas no período, como, por exemplo, a inserção das mulheres e das crianças no trabalho fabril, a mudança de gigantescos contingentes populacionais do campo para as cidades, as relações causais entre Revolução Científica e Revolução Industrial, entre outros temas (GRIFFIN, 2013). Dentro de tantas abordagens, baseadas em uma cadeia de fenômenos interpenetrados, uma análise materialista não pode abir mão de buscar entender o aspecto econômico deste processo, sua determinação em última instância, sem com isso desconsiderar em nada as sobredeterminações entre as diferentes esferas da vida humana.

É Engels quem apresenta a chave para compreendermos o significado histórico da Revolução Industrial, ao mostrar como o início desse processo na Inglaterra é o marco econômico da transição para um novo modo de produção, no qual despontam a burguesia industrial e o proletariado como classes sociais: “A história da classe operária na Inglaterra inicia-se na segunda metade do século passado, com a invenção da máquina a vapor e das máquinas destinadas a processar o algodão” (ENGELS, 2008, p. 45). O campo também é transformado com o despovoamento de diversas regiões, uma consequência da migração maciça para as cidades. SANTOS nota que

[…] a Revolução Industrial gerou uma atividade econômica nova: a atividade manufatureira-industrial. Ela retirou mão-de-obra do setor agrícola, representando então cerca de 80% da população, levando-a para as zonas urbanas (SANTOS, 1983).

Neste sentido, a Revolução Industrial do século XVIII tem sim um significado econômico e histórico especial, que não pode ser diluído como sendo apenas mais uma onda longa de uma série que pode ser retroagida ao Renascimento, à época medieval, ou mesmo à antiguidade como alguns propõem. Para Engels, a Revolução Industrial foi uma “revolução que alterou toda a sociedade civil”, e, portanto, só pode ser explicada dentro da dinâmica de uma mudança de qualidade na luta de classes.

Como afirma o Manifesto do Partido Comunista: “A própria burguesia moderna é o produto de um longo processo de desenvolvimento, de uma série de revoluções no modo de produção e de troca” (MARX, ???). Portanto, para compreendermos o surgimento do modo de produção capitalista, é necessário entendermos o surgimento da grande indústria como apenas um entre vários processos que conformam uma unidade histórica: a acumulação primitiva de capital, a conquista da América pelos colonizadores europeus, o enriquecimento da burguesia comercial, sua luta contra a nobreza, a dissolução das relações feudais por suas próprias contradições, etc.

Nesta dissertação, nos deteremos na análise das razões econômicas que levaram à generalização do moderno sistema fabril, sua relação com a produção científica e com o desenvolvimento tecnológico. Mas antes faremos algumas considerações acerca do processo de produção visto de uma perspectiva mais ampla, que extravasa o tempo histórico do capitalismo.

1Kuznet e Schumpeter são autores que enfatizaram o papel da inovação tecnológica e do progresso técnico para se compreender a dinâmica do crescimento capitalista. Para estes, o crescimento requer o desenvolvimento de novos produtos e ramos industriais. Para Schumpeter, o progresso técnico é também explicação para o alto grau de instabilidade das economias capitalistas, pois sua natureza é descontínua.

2Como parênteses, notamos que a aceitação da existência dos ciclos longos não exclui necessariamente o entendimento da importância histórica deste processo. Por exemplo, o primeiro ciclo longo de Kontradiev, conforme descrito por Schumpeter está identificado com a Revolução Industrial Britânica. Esses ciclos, de períodos próximo a meio século, divididos, por suas vezes, em períodos iguais de ascenso e descenso, seriam consequência da contínua repetição do processo de inovação e difusão de tecnologias, de acordo com os investimentos e com o retorno destes.

O Dilema de Cordélia, o enviesamento invisível como crise de paradigmas

Na peça Rei Lear de Shakespeare, Cordélia é castigada por sua honestidade recebendo porção menor que suas irmãs.

Stephan Jay Gould, biólogo, paleontólogo e historiador da ciência, que se tornou bastante conhecido por seu trabalho como divulgador da ciência, é o autor de um ensaio no qual define o que batizou como dilema de Cordélia. A referência remete à peça Rei Lear de William Shakespeare, na qual a filha caçula do rei é banida do reino por manter-se honesta e não bajulá-lo a exemplo de suas irmãs Goneril e Regan. Enquanto as duas últimas realizam discursos aduladores, afirmando amar o pai mais do que qualquer outra coisa, Cordelia responde a seu pai dizendo que se limita a “amar e ficar em silêncio”, o que enfurece o Rei, levando-o a sua drástica decisão. O erro de Lear lhe custa caro, suas duas outras filhas conspiram contra ele em um trágico enredo que termina com a morte do reu e de todas as suas três filhas.

Gould chama atenção para alguns problemas da produção científica, a começar pela não publicação de resultados negativos. Da mesma forma que o rei pretere o silêncio de sua filha caçula em prol das manifestações favoráveis de suas filhas mentirosas, as publicações acadêmicas não se interessam pelos resultados negativos.

A não publicação desses resultados acaba escondendo a não replicabilidade de muitos experimentos. Como exemplifica Gould:

Afirmações espetaculares na medicina sobre a eficácia de certo tratamento (particularmente para doenças crônicas e fatais como câncer e AIDS) podem ser propagandeadas após um resultado positivo (frequentemente obtido em um estudo baseado em uma amostra muito pequena). Estudos posteriores e mais extensos podem fracassar em duplicar os resultados positivos, na prática refutando o valor do tratamento. Mas esses resultados negativos subsequentes podem aparecer apenas em publicações altamente especializadas lidas por audiências mais restritas e, como não-histórias, não chegam à atenção da mídia, permitindo que as pessoas continuem a depositar confiança e desperdiçar tempo precioso seguindo procedimentos inúteis. (1995, p. 124, tradução nosssa)

Porém, em seu ensaio, Gould não reduz o dilema de Cordélia a essa questão da não publicação de resultados negativos, porque com relação a esta e ao enviesamento correspondente, com mais cuidado e com a utilização de ferramentas estatísticas as perguntas corretas podem ser feitas e bons cientistas podem perceber os resultados negativos, mesmo que estes sejam massivamente subreportados. Ele pede, então, que consideremos um problema muito mais insidioso e mais próximo do dilema entre Cordélia e seu pai: “E se nosso mundo conceitual excluir toda a possibilidade de reconhecermos um resultado negativo como um fenômeno? E se simplesmente não pudermos ver ou mesmo pensar sobre uma alternativa diferente e significativa?” (GOULD, 1995, p. 126)

Neste caso, a estatística pode ajudar pouco, pois seus procedimentos permitem excluir resultados anômalos extremos, que são considerados erros de medição ou mesmo exceções muito raras, mas não servem para refletir acerca dos pressupostos teóricos não conceituados que antecedem os experimentos realizados. Como colocam Levins e Lewontin: “A ciência tornou-se muito sofisticada na correção das subjetividades idiossincráticas de seus praticantes, mas não dos vieses compartilhados por comunidades de estudiosos” (LEVINS; LEWONTIN, 2007).

Gould afirma que a solução do dilema de Cordélia passa por uma “revisão mais extensa do nosso arcabouço teórico. Este não pode ser resolvido a partir de dentro, pois a teoria existente definiu sua ação como uma negação, ou não-fenômeno” (GOULD, 1995, p.127). A necessidade de superar-se os efeitos do dilema de Cordélia é uma argumento favorável a uma mudança de paradigmas.

A honestidade de Cordélia advém do fato dela saber distinguir entre amor e propriedade. O fato de ela amar seu pai não significa que ela deva invariavelmente fazer o que ele pede. A ciência, cativa do capital, enfrenta dilema semelhante. Em vez de um terço das terras do reino, o capital compra a ciência através da concessão de financiamento das pesquisas. Como vimos no subcapítulo no qual abordamos a crise de financiamento, este direcionamento se aprofunda na medida em que o investimento público cede espaço para o investimento privado direto, mesmo que indiretamente os recursos venham do fundo comum da sociedade através de renúncias fiscais. Isso possibilita a formação de verdadeiros consensos e o silenciamento das vozes dissidentes. Desta forma, a ciência se afasta da realidade e passa a cumprir um papel de encenação, tornando os cientistas meros personagens a declarar textos que fazem parte de um roteiro já combinado, mesmo que estes não tenham consciência disto.

O chumbo e o açúcar, exemplos de fraudes e interferência direta

Clair Patterson provou que o chumbo na gasolina estava envenenando os trabalhadores

Existe uma infinidade de exemplos de como as grandes corporações manipularam estudos científicos para que os mesmos não contradissessem seus interesses. Falamos aqui de fraudes, compra de consciências, mentiras e omissões para proteger as empresas de ações judiciais.

Um caso extremamente emblemático é o que envolveu Clair Patterson, geoquímico que teve um papel importante na campanha que terminou por banir o uso de chumbo nos combustíveis na maioria dos países.

Patterson tornou-se conhecido por ser um dos responsáveis pelo método de datação urânio-chumbo, utilizando-o para obter em 1956 a primeira estimativa precisa da idade do planeta terra, de 4,55 bilhões de anos. Ele chegou a essa estimativa observando a proporção entre o urânio e o chumbo encontrados no interior do mineral zircão. Como com o tempo o urânio vai se transformando em chumbo, através do processo de decaimento radioativo, e conhecendo a taxa desse decaimento que é constante, Patterson estudou essas concentrações em diferentes pontos da terra e em meteoritos, o que permitiu também que calculasse a datação do nosso sistema solar (PATTERSON, 1956).

Este cientista enfrentou o descrédito e uma intensa campanha de boicote quando sua pesquisa sobre a idade da Terra levou-o a indagar-se sobre a origem do chumbo presente no ambiente, 80 vezes superior ao que ele medira nos depósitos sedimentares oceânicos. Ele chegou a conclusão de que essa contaminação advinha da adição de tetraetilchumbo à gasolina. Em 1965, ele publicou o artigo Contaminated and Natural Lead Environments of Man no qual alertava para os malefícios que o chumbo causava à saúde humana. Muitos especialistas que trabalhavam para a indústria petroleira contestaram energicamente as alegações de Patterson. O nome que mais se destacou na defesa da indústria e pela manutenção da adição de chumbo na gasolina foi o de Robert Kehoe, representante da Ethyl Corporation, produtora de aditivos criada pela General Motors e pela Esso.

Como a pesquisa sobre o uso de chumbo como aditivo era quase que em sua totalidade financiada pela indústria, Kehoe pode controlar os dados que haviam sido coletados impedindo, dessa forma, que verificações independentes fossem realizadas.

Além do envenenamento por chumbo já ter sido observado na antiguidade1, dúvidas sobre a segurança do uso do chumbo como aditivo haviam sido levantadas ainda na década de 1920 após alguns pesquisadores notarem o adoecimento de pessoas que trabalhavam na produção do tetraetilchumbo.

Uma moratória foi decretada e uma conferência convocada em maio de 1925 para discutir se a produção deveria ser permanentemente interrompida. Foi em seu depoimento a essa conferência que Kehoe expôs a lógica do que ficou conhecido como paradigma de Kehoe, ou regra de Kehoe. Ele afirmou, como representante dos pesquisadores da Ehtyl Corporation, que a produção e distribuição de gasolina com chumbo só deveria ser interrompida caso pudesse ser demonstrado acima de qualquer dúvida razoável que o aditivo representava um perigo real. Porém, se esse perigo não pudesse ser comprovado factualmente (“mostre-me os dados”), um produto economicamente benéfico como este não poderia ser descartado com base apenas em opiniões. A produção foi então retomada e a indústria rapidamente se ocupou em demonstrar que não havia alternativa economicamente viável ao tetraetilchumbo. Cabe recordar que a pesquisa de Kehoe contava com o beneplácito do US Public Health Service e da American Medical Association.

Como resultado deste raciocínio, o ônus da prova recaía sobre os críticos da utilização do aditivo. Caso os resultados destes fossem inconclusivos, o tetraetilchumbo deveria ser permitido. Ou seja, neste paradigma, a ausência de evidências é tomada erroneamente como uma evidência da ausência de riscos, o que favorecia os interesses econômicos da indústria sobre a precaução com relação à saúde. O princípio da precaução é justamente o oposto: existe um risco possível até a prova do contrário. A falta de dados conclusivos produz uma situação muito confortável para estas corporações, porque sempre podem alegar o desconhecimento dos efeitos caso o produto seja posteriormente comprovado como perigoso. E nesse meio tempo, durante décadas, os lucros fluem enquanto os métodos e os resultados dos adversários sempre podem ser contestados com a alegação de que mais dados são necessários para a formação de uma certeza.

Apenas em 1986 a adição de tetraetilchumbo foi proibida nos Estados Unidos. No Brasil não tardou muito, a proibição foi em 1989, por conta da possível obtenção do mesmo efeito através da adição do etanol à gasolina. Segundo Kitman, a regra de Kehoe “representou um modelo para as indústrias do amianto, tabaco, pesticidas e nuclear […] para se esquivarem de evidência clara de que seus produtos eram perniciosos ao esconderem-se sob o manto da incerteza científica” (KITMAN, 2000). O laboratório dirigido por Kehoe também foi responsável por certificar a segurança dos gases refrigerantes fluorados, ou CFCs, “outra patente da GM insensível ao meio ambiente que ganharia centenas de milhões antes de ser proibida” (KITMAN, 2000).

Mais recentemente, em 2017, um novo caso de interferência desastrosa das corporações na produção científica veio à tona. A associação comercial que reúne as empresas do setor açucareiro financiou, em 1965, três acadêmicos de Harvard que publicaram uma revisão de estudos sobre os efeitos do açúcar e minimizaram a associação entre açúcar e doenças cardíacas. Por outro lado, difamou a ingestão de gordura saturada, colocando-a como a principal causa de problemas no coração. Este estudo ajudou a pavimentar o caminho para as recomendações nutricionais que perduraram por décadas e que apenas agora estão sendo revistas. Mais de 50 anos depois, a ciência está reabilitando o consumo de gorduras e revendo o consumo de carboidratos. Conforme uma equipe de pesquisadores da Universidade da Califórnia investigou e denunciou, cinco anos após a publicação desse primeiro estudo, a Sugar Association encomendou um novo teste sobre os efeitos do açúcar em animais. Quando os novos resultados revelaram uma realidade bem diferente, ligando a ingestão de açúcar a diversas doenças cardíacas, além de câncer de bexiga, a Associação simplesmente parou de financiar o estudo e este foi encerrado não tendo seus resultados divulgados (KEARNS, 2017).

Estes casos são considerados fraudes abertas, deformações que fazem corar a comunidade de cientistas, utilizados depois como exemplos nos livros didáticos de comportamentos contrários ao verdadeiro compromisso da ciência com a verdade. Contudo, essa avaliação é, salvo raras exceções, a posteriori, décadas após o erro ter permanecido invisível a toda uma comunidade de cientistas. Adentramos um problema muito mais complexo, e relacionado com os paradigmas reinantes em cada campo do conhecimento, o enviesamento compartilhado por toda uma comunidade de cientistas.

1Vitrúvio: “A água conduzidas por canos de argila é muito mais saudável do que a conduzida por tubulações de chumbo, realmente o chumbo parece nocivo, pois dele se obtém o alvaiade [PbCO3, carbonato de chumbo], que é prejudicial para o ser humano. Portanto, se o que é gerado a partir dele é pernicioso, não pode haver dúvida de que ele próprio não pode ser saudável. Isso pode ser verificado observando-se os que trabalham com chumbo, que são de cor pálida; pois, fundindo chumbo, os vapores se fixam nos diferentes membros, e os queima diariamente, destroem o vigor do sangue; a água não deve, portanto, sob hipótese alguma, ser conduzida em canos de chumbo se quisermos que seja saudável (VITRUVIUS, 1960, VIII.6.10-11, tradução nossa ).

Fraudes escancaradas e enviesamentos invisíveis

Richard Lewontin coautoru com Richard Levins “O Biólogo Dialético”

Em sua conferência de 1990 na Universidade de Toronto, intitulada Biologia como Ideologia, Richard Lewontin teceu interessantes observações sobre como a ciência ocupou, em uma sociedade mais secular e racionalista, um papel que antes era exclusivo da Igreja: o de prover justificativas para a consciência popular acerca dos fenômenos sociais. Para este geneticista, vencedor do prêmio Crafoord1 em 2015, a ciência como as demais atividades produtivas é “uma instituição social completamente integrada e influenciada pelas estruturas das demais instituições sociais” (LEWONTIN, 2000). Os problemas que ela lida, as ferramentas das quais ela dispõe, e até os resultados obtidos são fortemente influenciados pelas predisposições que advêm da sociedade na qual vivemos. A produção científica é uma atividade produtiva que consome tempo e dinheiro, então é natural que ela seja dirigida pelas forças que detêm o controle sobre o tempo e o dinheiro. Ela usa mercadorias e é parte do processo de produção de mercadorias. O capitalismo não só necessita dos efeitos econômicos da produção científica, mas ele se apropria ativamente das ideias científicas que lhe convém para sustentar as estruturas sociais que garantem sua dominação. Esse é um processo de mão dupla: o controle do capital sobre os cientistas e também o uso das ideias científicas pelo capital que justificam sua visão de ciência como ideologia (LEWONTIN, 1991).

Veremos nesse subcapítulo exemplos de duas formas diferentes através das quais essa ideologia silencia as vozes dissidentes e se perpetua: as fraudes abertas e os enviesamentos que se tornam quase invisíveis por serem compartilhados por toda uma comunidade de cientistas.

1Prêmio outorgado pela Academia Real de Ciências da Suécia nos campos não cobertos pelo Nobel

A solução das publicações de livre acesso e o novo problema das predatórias

Respondendo aos problemas do processo de publicação de artigos científicos, surgiu um novo tipo de periódico científico conhecido como publicação de acesso aberto. É o caso, por exemplo, da biblioteca de periódicos do projeto PLOS, que além de promover o livre acesso, não endossa os fatores de impacto como métricas úteis para avaliar a performance de artigos individuais. Para sustentar esse modelo, as publicações deste projeto cobram entre US$1.450 e U$2.900 dos autores por artigo, com a ressalva de que a impossibilidade do autor em pagar não impede a publicação, que é revisada por pares. Este modelo logo se revelou um sucesso e experimentou um crescimento exponencial. Um estudo estimou um salto de 19.500 artigos em publicações de acesso livre no ano 2000 para 191.850 em 2009, um aumento de 1.000% (LAAKSO, 2011).

Contudo, entre essas publicações de acesso livre, surgiram diversas tidas como predatórias, ou seja, dirigidas por grupos interessados apenas em recolher as taxas cobradas aos autores, sem oferecer os serviços editoriais e de publicação associados aos periódicos legítimos. O processo de revisão por pares dessas revistas muitas vezes se revelaram totalmente fraudulentos com o aceite chegando algumas vezes poucas horas após a submissão e correspondente pagamento da taxa. Jeffrey Beall, bibliotecário e professor-associado da Universidade de Colorado, defensor do modelo tradicional de publicação e um crítico do acesso livre, manteve durante muitos anos uma lista, na qual, em dezembro de 2016, constavam 1163 editoras responsáveis por publicações tidas como predatórias. Ele estimou que cerca de 25% dos periódicos de livre acesso tinham essas características. Similarmente, ele também notou o surgimento de conferências predatórias, organizadas por grupos interessados apenas na cobrança das altas taxas de inscrição (BEALL, 2017).

Beall foi duramente criticado por aqueles que consideram que ele, em nome da defesa do modelo tradicional, excedeu-se nas generalizações e caluniou publicações sérias, misturando-as com outras fraudulentas. Em janeiro de 2017, a lista de Beall e a página pessoal dele foram retiradas do site da Universidade do Colorado por conta das múltiplas notificações legais e ameaças de processo.

Iniciativa recente associada à de Beall foi realizada no Brasil pelos pesquisadores Paulo Inácio Prado, do Instituto de Biociências da USP, Roberto André Kraenkel, do Instituto de Física Teórica da Unesp, e Renato Mendes Coutinho, do Centro de Matemática, Computação e Cognição da UFABC. Eles criaram um banco de dados com o título de Preda Qualis, no qual cruzaram a lista de publicações tidas como predatórias com as listadas no Qualis, chegando a um total de 485 periódicos, sendo que 67% classificados nos estratos A e B, em, pelo menos, uma área de conhecimento. Eles chegaram à conclusão de que, ainda que a

baixa proporção de títulos potencialmente predatórios no QUALIS indica que o uso destes periódicos não é prática comum nos programas de pós-graduação brasileiros (…) há uma grande vulnerabilidade do sistema de avaliação da CAPES à invasão por este tipo de publicação (PRADO, P, 2017).

O fato é que a adoção de um ou outro dos modelos de publicação opostos, per si, não muda em nada a natureza mercantil da produção científica e sua apropriação, de uma forma ou de outra, pela lógica de autovalorização do capital, da mesma forma que o cooperativismo, o software livre, os alimentos orgânicos, os mutirões de habitação e tantos outros movimentos que se originaram de uma perspectiva anticapitalista, acabaram sendo usados pelo capital, de uma forma ou de outra, para oxigenar seu corpo moribundo. Sem uma transição para outro modo de produção, que resulte em outro fundamento sobre o qual se organize a sociedade, é ingênuo pensarmos na possibilidade de mediarmos ou mesmo impedirmos que a ciência seja imbuída da lógica mercantil.