As Revoluções do Neolítico, do Paleolítico e Industrial

Como já afirmamos, a identidade entre revolução industrial e capitalismo não permite afirmar que os avanços técnicos tenham sido inaugurados com este modo de produção. Como lembra Santos, um certo grau de desenvolvimento das forças produtivas já é um pré-requisito para o surgimento deste:

O modo de produção capitalista surge num estágio bastante elevado da luta do homem para submeter a natureza. De fato, este modo de produção surge como consequência do alto desenvolvimento das forças produtivas devido à expansão das indústrias e do comércio mundial (SANTOS, 1983, p. 11)

Esta correspondência entre revolução industrial e capitalismo pressupõe apenas “um novo patamar da relação entre o homem e a natureza, de forma análoga à objetivação do corpo humano nas ferramentas produzidas desde o paleolítico” (BEVILAQUA, 2015, p. 251).

Engels, ao mesmo tempo que reconhece a importância da revolução industrial e seu significado dentro da luta de classes, logo seus aspectos econômicos, políticos, sociais e culturais, demonstra também o outro lado do processo de ruptura, a continuidade da mudança tecnológica ao longo da história da humanidade, inclusive no período que antecedeu a conformação das classes sociais, remontando à constituição da nossa espécie, como explica o título da sua obra, inacabada e publicada postumamente, O papel do trabalho na transformação do macaco em homem, na qual podemos ler que “[o trabalho] é a condição básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem”. (ENGELS, 2010A, p. 452). Na linha de Engels, Álvaro Vieira Pinto, em obra também publicada postumamente, O Conceito de Tecnologia, critica a expressão “era tecnológica” para descrever o período contemporâneo. Para ele, se tratava de uma construção ideológica apologética do sistema, para “embriagar a consciência das massas, fazendo-as crer que tem a felicidade de viver nos melhores tempos jamais desfrutados pela humanidade” (PINTO, 2005, p. 41). Isso em um mundo no qual o domínio da tecnologia encontra-se nos centros imperialistas, cabendo ao mundo periférico a condição de paciente receptor das inovações técnicas. Em sua formulação, Pinto nota que no processo de sua constituição, os seres humanos adquirem a capacidade de projetar (teleologia), ao mesmo tempo em que convertem em seres sociais, algo necessário à produção do que foi projetado. Acompanha-o Frigotto (2006), para quem “o trabalho é a categoria ‘ontocriativa’ da vida humana, e o conhecimento, a ciência, a técnica e a tecnologia e a própria cultura são mediações produzidas pelo trabalho na relação entre os seres humanos e os meios de vida”.

Não é possível falar em trabalho em falar sem desenvolvimento da técnica, afinal, como também nota Engels (2010a, p. 452), “O trabalho começa com a elaboração de instrumentos”, ou seja, também podemos definir o ser humano por sua capacidade tecnológica.

Para ROSENBERG (2006, p. 17),

[…] num sentido fundamental, a história do progresso técnico é inseparável da história da própria civilização, na medida em que trata dos esforços da humanidade para aumentar a produtividade sob uma gama extremamente diversificada de condições ambientais.

Desta forma, a Revolução Industrial pode ser colocada em uma perspectiva ainda maior, de conformação e transformação da existência humana a partir do trabalho, perfilando-se ao lado de dois outros grandes processos revolucionários muitas vezes olvidados, as revoluções do Paleolítico e do Neolítico.

O desenvolvimento tecnológico e o processo de produção

Desenvolvimento tecnológico não é idêntico a desenvolvimento científico, apesar da crescente organicidade entre ambos durante o capitalismo ao ponto de Rosa (2006, p. 13) definir a ciência contemporânea como tecnociência, um termo originário da abordagem construtivista, que “significa a junção da ciência com a tecnologia dela derivada e que retroativamente a alimenta”.

Exemplo desse entrelaçamento é o fato de que atualmente apenas uma pequena parte da produção científica é realizada sem o uso de complexos instrumentos tecnológicos. Contudo, existem diferenças históricas e lógicas entre ambos os processos de acúmulo de conhecimento e entre suas respectivas instituições.

Ao longo do século XX debateu-se o quanto o início do processo de industrialização deve-se à aplicação sistemática da ciência moderna à produção. A relação direta entre a ciência e o progresso técnico, que hoje consiste num verdadeiro truísmo, não é tão evidente quando nos focamos nos primórdios da Revolução Industrial. O debate é bastante matizado, como relata Rosenberg (2006): Musson e Robson em seu livro Science and Technology in the Industrial Revolution ressaltam a dependência que o progresso técnico teve com a ciência no período da Revolução Industrial a partir da apresentação de abundante evidência dos canais que ligavam os cientistas aos homens de negócio. Esta é também a posição de Rostow. Mas, do lado oposto, estão numerosos historiadores da tecnologia que ressaltam a importância da tentativa e erro1 e de um exercício paciente de empirismo como Usher, Landes e Gilfillan. Hall, por exemplo, afirma que não existem evidências que liguem o desenvolvimento anterior a 1760 à erudição ou à educação formal (ROSENBERG, 2006). Neste caso, faz diferença a opção por um conceito mais estrito de ciência, definida como corpo de conhecimento consistentemente integrado em uma estrutura teórica, ou por um conceito mais amplo que abrange a mudança de procedimentos e atitudes perante os métodos experimentais. Um alto grau de originalidade científica não parece ter sido uma condição necessária para o dinamismo tecnológico (ROSENBERG, 2006). Na Inglaterra parece ter sido um pouco diferente, pelo menos Schofield aventou a hipótese de que as sociedades científicas provinciais, como a Lunar Society de Birmingham propiciavam um relacionamento estreito entre os cientistas e o setor produtivo.

Marx nos Grundrisse antecipa a conclusão que historiadores econômicos levaram mais de um século para assentar, de que “o desenvolvimento da maquinaria por essa via [aplicação sistemática da ciência] só ocorre quando a grande indústria já atingiu um estágio mais elevado e o conjunto das ciências já se encontra cativo a serviço do capital”, ou seja, “esta não é a via que deu origem à maquinaria no geral, e menos ainda a via pela qual ela avança em particular”. A via original de desenvolvimento do sistema de máquinas para Marx “é a análise – pela divisão do trabalho, que transforma as operações dos trabalhadores cada vez mais em operações mecânicas, de tal modo que a certa altura o mecanismo pode ocupar os seus lugares” (MARX, 2011, p. 587). A construção das primeiras máquinas é consequência da especialização do trabalho artesanal, uma característica da manufatura medieval, pois “é justamente porque a habilidade artesanal permanece como a base do processo de produção que cada trabalhador passa a dedicar-se exclusivamente a uma função parcial, e sua força de trabalho é então transformada em órgão vitalício dessa função parcial” (MARX, 1996, l. 1, v. 1, p. 455). Marx embasou suas conclusões em um profundo estudo sobre a história da tecnologia, que ficou registrado em anotações que foram batizadas de Cadernos de Marx sobre a História da Tecnologia. Este material, que nunca foi publicado, chegou a ser consultado no passado, mas no momento sua localização não é conhecida publicamente2. Em uma carta a Engels, na qual Marx se refere a essas anotações, ele também relata ter participado de um curso prático experimental sobre o tema.

O conhecimento obtido acerca do desenvolvimento, ao longo da história, do processo de trabalho permitiu que Marx o distinguisse conceitualmente do processo de produção de valor, enfatizando assim a utilidade de se refletir acerca do “processo de trabalho independentemente de qualquer forma social determinada” (MARX, 1996, l. 1, v. 1, p. 297). Desta ótica, o processo de trabalho é a mediação entre os seres humanos e a natureza que resulta na transformação de ambos:

Ele [o ser humano] põe em movimento as forças naturais pertencentes a sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a Natureza externa a ele e ao modificá-la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. (MARX, 1996, l. 1, v. 1, p. 297).

O entendimento de que o desenvolvimento das forças produtivas é o próprio desenvolvimento da relação entre os seres humanos e a natureza não permite imputar a Marx uma concepção determinista tecnológica da história humana, pois como bem frisa Bevilaqua:

no conceito de forças produtivas está a expressão reificada das classes sociais, logo, as relações de produção, que derivam destas, e que expressam tanto o seu desenvolvimento material, quanto intelectual, condensados em sua atividade prática, interesses imediatos e futuros; portanto, a luta de classes, consequentemente o fundamento histórico de todas as transformações revolucionárias na sociedade humana; seja nas relações de produção, seja nas formas ideológicas, jurídicas e políticas, com que toma consciência das contradições da vida material e chega às últimas consequências para resolvê-las (BEVILAQUA, 2015, p. 250).

Analisando o processo de produção desde o surgimento do humano como ser social, podemos traçar uma linha de continuidade entre o desenvolvimento empírico que se iniciou na pré-história com a fabricação das primeiras ferramentas como extensão do corpo humano, que será objeto da digressão do próximo subcapítulo, e a especialização do trabalho artesanal que permitiu a posterior criação das máquinas como órgãos da produção.

1Um exemplo, já no século XX, é o de Santos Dummont, normalmente apresentado como inventor e quase nunca como cientista, o que coincide com seu método eminentemente experimental que o fez voar sem que ele precisasse resolver as equações de Navier-Stokes que descrevem o escoamento de fluídos. Isso levou Einstein a se indagar em 1916 sobre a causa da sustentação das asas de “nossas aves e máquinas voadoras”, afirmando haver “uma falta de clareza em geral sobre esta questão” (STUDART, 2006).

2Existe a expectativa que estes façam parte da terceira coleção de suas obras completas, conhecidas pelo acrônimo MEGA (Marx-Engels-Gesamtausgabe), que terá cerca de 114 volumes, sendo que até agora já foram publicados 65. Pelo plano divulgado, serão ainda publicados 32 volumes apenas de excertos, notas e anotações marginais, a grande maioria dos quais permanece inédita.

O quão revolucionária foi a Revolução Industrial?

Se a existência da Revolução Industrial é, hoje, quiça, um dos grandes pontos de concordância entre historiadores e economistas, o significado desse processo e o estabelecimento dos seus marcos temporais são objeto das mais diversas interpretações. Hobsbawn, por exemplo, considera que este “não foi um episódio com um princípio e um fim. Não tem sentido perguntar quando se ‘completou’, pois sua essência foi a de que a mudança revolucionária se tornou norma deste então. Ela ainda prossegue” (HOBSBAWM, 1997). O termo Révolution Industrielle, como nota GRIFFIN, foi muito provavelmente cunhado “na França, no início do século dezenove, por economistas políticos impressionados com os tremendos avanços econômicos e sociais que haviam sido recentemente obtidos do outro lado do Canal”. Tratava-se de uma analogia com a Revolução Francesa, da qual a Revolução Industrial seria a contraparte econômica, antecedendo-a em cerca de meio século (GRIFFIN, 2007, p. ???). A correspondência entre ambas, e também com a revolução filosófica alemã, foi analisada por Engels, autor responsável pelo desenvolvimento pleno do termo Revolução Industrial em uma categoria científica, em sua obra seminal A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra:

A revolução industrial teve para a Inglaterra a mesma importância que a revolução política teve para a França e filosófica para a Alemanha a, e a distância que separa a Inglaterra de 1760 da Inglaterra de 1844 é pelo menos tão grande quanto aquela que separa a França do Antigo Regime da França da Revolução de Julho. O fruto mais importante dessa revolução industrial, porém, é o proletariado inglês (ENGELS, 2008).

Este livro de Engels, escrito entre 1842 e 1844 durante sua estada em Manchester e publicado em Leipzig, foi traduzido do alemão ao inglês apenas em 1885, para uma edição estadunidense publicada no ano seguinte em Nova Iorque. O termo Revolução Industrial só passou a ser amplamente usado na língua do país em que este processo se originou após a publicação póstuma das Aulas sobre a Revolução Industrial Inglesa do historiador e reformador social Arnold Toynbee (GRIFFIN, 2013). Não se sabe se Toynbee conhecia o trabalho de Engels, pois ele morre antes da tradução inglesa do mesmo, mas seu relato guarda semelhanças com o trabalho do filósofo prussiano, inclusive na denúncia das mazelas dos trabalhadores pobres resultantes deste processo.

A não utilização do termo Revolução Industrial pelos acadêmicos britânicos do século XIX não quer dizer que estes não tenham expressado por diversas vezes a consciência da superioridade do desenvolvimento industrial da Inglaterra, que em meados do século XIX era indubitavelmente a nação mais rica do mundo. A Grande Exposição de 1851 no Palácio de Cristal, erguido para este fim no Hyde Park, que reuniu mais de 6 milhões de pessoas durante os poucos mais de cinco meses em que esteve aberta, foi um ode ao desenvolvimento industrial dos países convidados, mas mormente uma apologia à supremacia industrial britânica.

Segundo GRIFFIN, a partir do fim do século XIX, como um pêndulo, a posição dos acadêmicos sobre este fenômeno histórico oscilou entre a afirmação e o revisionismo do mesmo. Se a afirmação da Revolução Industrial leva à divisão do mundo em um antes e um depois da transformação da indústria têxtil localizada na região sul do condado de Lancashire, onde ficavam as cidades inglesas de Manchester e Liverpool, seu revisionismo consiste em questionar até que ponto este foi mesmo tão revolucionário, ou seja, se se tratava de um processo suis generis ou de apenas mais um episódio de uma série de ciclos longos de prosperidade e desenvolvimento. Schumpeter1, por exemplo, referiu-se a:

aquelas ondas longas2 na atividade econômica, cuja análise revela a natureza e o mecanismo do processo capitalista melhor do que qualquer outra coisa. Cada uma deles consiste em uma revolução industrial e na absorção de seus efeitos. (SCHUMPETER, 2010, tradução nossa)

Griffin nota que o questionamento da Revolução Industrial como fato histórico singular e excepcional prosperou inicialmente no período que vai do início da crise da década de 1920, até o fim da depressão, já nos últimos anos da guerra.

Depois, no pós-guerra, o pêndulo do debate voltou para o lado dos que veem na Revolução Industrial iniciada na Inglaterra um divisor de águas: o início de um processo exponencial de desenvolvimento econômico, e também, por muito tempo, de crescimento populacional. Essa mudança de percepção nos historiadores do pós-guerra certamente foi favorecida pelo boom econômico que estes experimentavam em vida, com a reconstrução do continente europeu e a difusão das tecnologias criadas no contexto militar.

Para Eric Hobsbawm, o mais reconhecido historiador britânico a despontar neste período, “a Revolução Industrial marca a mais fundamental transformação da vida humana na história do mundo registrada em documentos escritos” (HOBSBAWM, 1999, tradução nossa). Mas, segundo Griffin, já no final dos anos 1970, período no qual novas crises se manifestam, ganha renovado impulso a negação da importância atribuída à Revolução Industrial, principalmente a partir de parte dos historiadores que se utilizaram de ferramentas econômicas e estatísticas para empreender uma reavaliação do ritmo e da extensão com os quais os diferentes setores da indústria foram sendo transformados, através da quantificação de métricas como produtividade, produto interno bruto e volume de exportações das nações envolvidas.

Diversos historiadores econômicos tomaram partido neste debate. Strassmann, por exemplo, refuta o caráter central da destruição criadora de Schumpeter, ao mostrar como, entre 1850 e 1914, tecnologias novas e antigas coexistiram por várias décadas. Gilfillan em seu livro Inventing the Ship enfatizou o caráter perene do desenvolvimento do progresso técnico, “uma contínua adição de inúmeras pequenas melhorias, com somente muito raras inovações de grande porte”. Para exemplificar, ele expõe a evolução dos motores náuticos, uma lenta sequência de incrementos no tamanho e na resistência das caldeiras (GILFILLAN apud ROSENBERG, 2006). Fishlow notou algo semelhante no projeto das locomotivas e dos vagões de carga, que triplicaram seu volume entre 1870 e 1910 através de sucessivas melhoras sem “qualquer invenção memorável ou facilmente identificável”. Hollander conclui em seu estudo da eficiência das fábricas Duopont que as pequenas mudanças técnicas tiveram mais impacto na redução de custos que as grandes (ROSENBERG, 2006). Neste contexto, o trabalho de Craft (1985) torna-se influente por apresentar uma estimativa das taxas de crescimento econômico entre 1770 e 1830 que indicavam um ritmo muito menor do que o previamente assumido. Como em toda polêmica que envolve estatística, o método e os dados de Craft foram questionados e revisados de diversos ângulos, o que levou à relativização de sua descoberta, sem que isso permitisse um retorno às estimativas anteriores de crescimento.

Muitos historiadores ponderaram, então, que a simples mensuração dessas métricas econômicas não é suficiente para desvelar um processo histórico tão complexo, que certamente não se manifestou homogeneamente em todos os ramos da economia. Fazê-lo seria incorrer em um problema metodológico de mau uso do reducionismo. Com isso, e acompanhando um movimento geral da historiografia, o foco do debate mudou e passou a explorar as significativas mudanças sociais e culturais gestadas no período, como, por exemplo, a inserção das mulheres e das crianças no trabalho fabril, a mudança de gigantescos contingentes populacionais do campo para as cidades, as relações causais entre Revolução Científica e Revolução Industrial, entre outros temas (GRIFFIN, 2013). Dentro de tantas abordagens, baseadas em uma cadeia de fenômenos interpenetrados, uma análise materialista não pode abir mão de buscar entender o aspecto econômico deste processo, sua determinação em última instância, sem com isso desconsiderar em nada as sobredeterminações entre as diferentes esferas da vida humana.

É Engels quem apresenta a chave para compreendermos o significado histórico da Revolução Industrial, ao mostrar como o início desse processo na Inglaterra é o marco econômico da transição para um novo modo de produção, no qual despontam a burguesia industrial e o proletariado como classes sociais: “A história da classe operária na Inglaterra inicia-se na segunda metade do século passado, com a invenção da máquina a vapor e das máquinas destinadas a processar o algodão” (ENGELS, 2008, p. 45). O campo também é transformado com o despovoamento de diversas regiões, uma consequência da migração maciça para as cidades. SANTOS nota que

[…] a Revolução Industrial gerou uma atividade econômica nova: a atividade manufatureira-industrial. Ela retirou mão-de-obra do setor agrícola, representando então cerca de 80% da população, levando-a para as zonas urbanas (SANTOS, 1983).

Neste sentido, a Revolução Industrial do século XVIII tem sim um significado econômico e histórico especial, que não pode ser diluído como sendo apenas mais uma onda longa de uma série que pode ser retroagida ao Renascimento, à época medieval, ou mesmo à antiguidade como alguns propõem. Para Engels, a Revolução Industrial foi uma “revolução que alterou toda a sociedade civil”, e, portanto, só pode ser explicada dentro da dinâmica de uma mudança de qualidade na luta de classes.

Como afirma o Manifesto do Partido Comunista: “A própria burguesia moderna é o produto de um longo processo de desenvolvimento, de uma série de revoluções no modo de produção e de troca” (MARX, ???). Portanto, para compreendermos o surgimento do modo de produção capitalista, é necessário entendermos o surgimento da grande indústria como apenas um entre vários processos que conformam uma unidade histórica: a acumulação primitiva de capital, a conquista da América pelos colonizadores europeus, o enriquecimento da burguesia comercial, sua luta contra a nobreza, a dissolução das relações feudais por suas próprias contradições, etc.

Nesta dissertação, nos deteremos na análise das razões econômicas que levaram à generalização do moderno sistema fabril, sua relação com a produção científica e com o desenvolvimento tecnológico. Mas antes faremos algumas considerações acerca do processo de produção visto de uma perspectiva mais ampla, que extravasa o tempo histórico do capitalismo.

1Kuznet e Schumpeter são autores que enfatizaram o papel da inovação tecnológica e do progresso técnico para se compreender a dinâmica do crescimento capitalista. Para estes, o crescimento requer o desenvolvimento de novos produtos e ramos industriais. Para Schumpeter, o progresso técnico é também explicação para o alto grau de instabilidade das economias capitalistas, pois sua natureza é descontínua.

2Como parênteses, notamos que a aceitação da existência dos ciclos longos não exclui necessariamente o entendimento da importância histórica deste processo. Por exemplo, o primeiro ciclo longo de Kontradiev, conforme descrito por Schumpeter está identificado com a Revolução Industrial Britânica. Esses ciclos, de períodos próximo a meio século, divididos, por suas vezes, em períodos iguais de ascenso e descenso, seriam consequência da contínua repetição do processo de inovação e difusão de tecnologias, de acordo com os investimentos e com o retorno destes.

O Dilema de Cordélia, o enviesamento invisível como crise de paradigmas

Na peça Rei Lear de Shakespeare, Cordélia é castigada por sua honestidade recebendo porção menor que suas irmãs.

Stephan Jay Gould, biólogo, paleontólogo e historiador da ciência, que se tornou bastante conhecido por seu trabalho como divulgador da ciência, é o autor de um ensaio no qual define o que batizou como dilema de Cordélia. A referência remete à peça Rei Lear de William Shakespeare, na qual a filha caçula do rei é banida do reino por manter-se honesta e não bajulá-lo a exemplo de suas irmãs Goneril e Regan. Enquanto as duas últimas realizam discursos aduladores, afirmando amar o pai mais do que qualquer outra coisa, Cordelia responde a seu pai dizendo que se limita a “amar e ficar em silêncio”, o que enfurece o Rei, levando-o a sua drástica decisão. O erro de Lear lhe custa caro, suas duas outras filhas conspiram contra ele em um trágico enredo que termina com a morte do reu e de todas as suas três filhas.

Gould chama atenção para alguns problemas da produção científica, a começar pela não publicação de resultados negativos. Da mesma forma que o rei pretere o silêncio de sua filha caçula em prol das manifestações favoráveis de suas filhas mentirosas, as publicações acadêmicas não se interessam pelos resultados negativos.

A não publicação desses resultados acaba escondendo a não replicabilidade de muitos experimentos. Como exemplifica Gould:

Afirmações espetaculares na medicina sobre a eficácia de certo tratamento (particularmente para doenças crônicas e fatais como câncer e AIDS) podem ser propagandeadas após um resultado positivo (frequentemente obtido em um estudo baseado em uma amostra muito pequena). Estudos posteriores e mais extensos podem fracassar em duplicar os resultados positivos, na prática refutando o valor do tratamento. Mas esses resultados negativos subsequentes podem aparecer apenas em publicações altamente especializadas lidas por audiências mais restritas e, como não-histórias, não chegam à atenção da mídia, permitindo que as pessoas continuem a depositar confiança e desperdiçar tempo precioso seguindo procedimentos inúteis. (1995, p. 124, tradução nosssa)

Porém, em seu ensaio, Gould não reduz o dilema de Cordélia a essa questão da não publicação de resultados negativos, porque com relação a esta e ao enviesamento correspondente, com mais cuidado e com a utilização de ferramentas estatísticas as perguntas corretas podem ser feitas e bons cientistas podem perceber os resultados negativos, mesmo que estes sejam massivamente subreportados. Ele pede, então, que consideremos um problema muito mais insidioso e mais próximo do dilema entre Cordélia e seu pai: “E se nosso mundo conceitual excluir toda a possibilidade de reconhecermos um resultado negativo como um fenômeno? E se simplesmente não pudermos ver ou mesmo pensar sobre uma alternativa diferente e significativa?” (GOULD, 1995, p. 126)

Neste caso, a estatística pode ajudar pouco, pois seus procedimentos permitem excluir resultados anômalos extremos, que são considerados erros de medição ou mesmo exceções muito raras, mas não servem para refletir acerca dos pressupostos teóricos não conceituados que antecedem os experimentos realizados. Como colocam Levins e Lewontin: “A ciência tornou-se muito sofisticada na correção das subjetividades idiossincráticas de seus praticantes, mas não dos vieses compartilhados por comunidades de estudiosos” (LEVINS; LEWONTIN, 2007).

Gould afirma que a solução do dilema de Cordélia passa por uma “revisão mais extensa do nosso arcabouço teórico. Este não pode ser resolvido a partir de dentro, pois a teoria existente definiu sua ação como uma negação, ou não-fenômeno” (GOULD, 1995, p.127). A necessidade de superar-se os efeitos do dilema de Cordélia é uma argumento favorável a uma mudança de paradigmas.

A honestidade de Cordélia advém do fato dela saber distinguir entre amor e propriedade. O fato de ela amar seu pai não significa que ela deva invariavelmente fazer o que ele pede. A ciência, cativa do capital, enfrenta dilema semelhante. Em vez de um terço das terras do reino, o capital compra a ciência através da concessão de financiamento das pesquisas. Como vimos no subcapítulo no qual abordamos a crise de financiamento, este direcionamento se aprofunda na medida em que o investimento público cede espaço para o investimento privado direto, mesmo que indiretamente os recursos venham do fundo comum da sociedade através de renúncias fiscais. Isso possibilita a formação de verdadeiros consensos e o silenciamento das vozes dissidentes. Desta forma, a ciência se afasta da realidade e passa a cumprir um papel de encenação, tornando os cientistas meros personagens a declarar textos que fazem parte de um roteiro já combinado, mesmo que estes não tenham consciência disto.

O chumbo e o açúcar, exemplos de fraudes e interferência direta

Clair Patterson provou que o chumbo na gasolina estava envenenando os trabalhadores

Existe uma infinidade de exemplos de como as grandes corporações manipularam estudos científicos para que os mesmos não contradissessem seus interesses. Falamos aqui de fraudes, compra de consciências, mentiras e omissões para proteger as empresas de ações judiciais.

Um caso extremamente emblemático é o que envolveu Clair Patterson, geoquímico que teve um papel importante na campanha que terminou por banir o uso de chumbo nos combustíveis na maioria dos países.

Patterson tornou-se conhecido por ser um dos responsáveis pelo método de datação urânio-chumbo, utilizando-o para obter em 1956 a primeira estimativa precisa da idade do planeta terra, de 4,55 bilhões de anos. Ele chegou a essa estimativa observando a proporção entre o urânio e o chumbo encontrados no interior do mineral zircão. Como com o tempo o urânio vai se transformando em chumbo, através do processo de decaimento radioativo, e conhecendo a taxa desse decaimento que é constante, Patterson estudou essas concentrações em diferentes pontos da terra e em meteoritos, o que permitiu também que calculasse a datação do nosso sistema solar (PATTERSON, 1956).

Este cientista enfrentou o descrédito e uma intensa campanha de boicote quando sua pesquisa sobre a idade da Terra levou-o a indagar-se sobre a origem do chumbo presente no ambiente, 80 vezes superior ao que ele medira nos depósitos sedimentares oceânicos. Ele chegou a conclusão de que essa contaminação advinha da adição de tetraetilchumbo à gasolina. Em 1965, ele publicou o artigo Contaminated and Natural Lead Environments of Man no qual alertava para os malefícios que o chumbo causava à saúde humana. Muitos especialistas que trabalhavam para a indústria petroleira contestaram energicamente as alegações de Patterson. O nome que mais se destacou na defesa da indústria e pela manutenção da adição de chumbo na gasolina foi o de Robert Kehoe, representante da Ethyl Corporation, produtora de aditivos criada pela General Motors e pela Esso.

Como a pesquisa sobre o uso de chumbo como aditivo era quase que em sua totalidade financiada pela indústria, Kehoe pode controlar os dados que haviam sido coletados impedindo, dessa forma, que verificações independentes fossem realizadas.

Além do envenenamento por chumbo já ter sido observado na antiguidade1, dúvidas sobre a segurança do uso do chumbo como aditivo haviam sido levantadas ainda na década de 1920 após alguns pesquisadores notarem o adoecimento de pessoas que trabalhavam na produção do tetraetilchumbo.

Uma moratória foi decretada e uma conferência convocada em maio de 1925 para discutir se a produção deveria ser permanentemente interrompida. Foi em seu depoimento a essa conferência que Kehoe expôs a lógica do que ficou conhecido como paradigma de Kehoe, ou regra de Kehoe. Ele afirmou, como representante dos pesquisadores da Ehtyl Corporation, que a produção e distribuição de gasolina com chumbo só deveria ser interrompida caso pudesse ser demonstrado acima de qualquer dúvida razoável que o aditivo representava um perigo real. Porém, se esse perigo não pudesse ser comprovado factualmente (“mostre-me os dados”), um produto economicamente benéfico como este não poderia ser descartado com base apenas em opiniões. A produção foi então retomada e a indústria rapidamente se ocupou em demonstrar que não havia alternativa economicamente viável ao tetraetilchumbo. Cabe recordar que a pesquisa de Kehoe contava com o beneplácito do US Public Health Service e da American Medical Association.

Como resultado deste raciocínio, o ônus da prova recaía sobre os críticos da utilização do aditivo. Caso os resultados destes fossem inconclusivos, o tetraetilchumbo deveria ser permitido. Ou seja, neste paradigma, a ausência de evidências é tomada erroneamente como uma evidência da ausência de riscos, o que favorecia os interesses econômicos da indústria sobre a precaução com relação à saúde. O princípio da precaução é justamente o oposto: existe um risco possível até a prova do contrário. A falta de dados conclusivos produz uma situação muito confortável para estas corporações, porque sempre podem alegar o desconhecimento dos efeitos caso o produto seja posteriormente comprovado como perigoso. E nesse meio tempo, durante décadas, os lucros fluem enquanto os métodos e os resultados dos adversários sempre podem ser contestados com a alegação de que mais dados são necessários para a formação de uma certeza.

Apenas em 1986 a adição de tetraetilchumbo foi proibida nos Estados Unidos. No Brasil não tardou muito, a proibição foi em 1989, por conta da possível obtenção do mesmo efeito através da adição do etanol à gasolina. Segundo Kitman, a regra de Kehoe “representou um modelo para as indústrias do amianto, tabaco, pesticidas e nuclear […] para se esquivarem de evidência clara de que seus produtos eram perniciosos ao esconderem-se sob o manto da incerteza científica” (KITMAN, 2000). O laboratório dirigido por Kehoe também foi responsável por certificar a segurança dos gases refrigerantes fluorados, ou CFCs, “outra patente da GM insensível ao meio ambiente que ganharia centenas de milhões antes de ser proibida” (KITMAN, 2000).

Mais recentemente, em 2017, um novo caso de interferência desastrosa das corporações na produção científica veio à tona. A associação comercial que reúne as empresas do setor açucareiro financiou, em 1965, três acadêmicos de Harvard que publicaram uma revisão de estudos sobre os efeitos do açúcar e minimizaram a associação entre açúcar e doenças cardíacas. Por outro lado, difamou a ingestão de gordura saturada, colocando-a como a principal causa de problemas no coração. Este estudo ajudou a pavimentar o caminho para as recomendações nutricionais que perduraram por décadas e que apenas agora estão sendo revistas. Mais de 50 anos depois, a ciência está reabilitando o consumo de gorduras e revendo o consumo de carboidratos. Conforme uma equipe de pesquisadores da Universidade da Califórnia investigou e denunciou, cinco anos após a publicação desse primeiro estudo, a Sugar Association encomendou um novo teste sobre os efeitos do açúcar em animais. Quando os novos resultados revelaram uma realidade bem diferente, ligando a ingestão de açúcar a diversas doenças cardíacas, além de câncer de bexiga, a Associação simplesmente parou de financiar o estudo e este foi encerrado não tendo seus resultados divulgados (KEARNS, 2017).

Estes casos são considerados fraudes abertas, deformações que fazem corar a comunidade de cientistas, utilizados depois como exemplos nos livros didáticos de comportamentos contrários ao verdadeiro compromisso da ciência com a verdade. Contudo, essa avaliação é, salvo raras exceções, a posteriori, décadas após o erro ter permanecido invisível a toda uma comunidade de cientistas. Adentramos um problema muito mais complexo, e relacionado com os paradigmas reinantes em cada campo do conhecimento, o enviesamento compartilhado por toda uma comunidade de cientistas.

1Vitrúvio: “A água conduzidas por canos de argila é muito mais saudável do que a conduzida por tubulações de chumbo, realmente o chumbo parece nocivo, pois dele se obtém o alvaiade [PbCO3, carbonato de chumbo], que é prejudicial para o ser humano. Portanto, se o que é gerado a partir dele é pernicioso, não pode haver dúvida de que ele próprio não pode ser saudável. Isso pode ser verificado observando-se os que trabalham com chumbo, que são de cor pálida; pois, fundindo chumbo, os vapores se fixam nos diferentes membros, e os queima diariamente, destroem o vigor do sangue; a água não deve, portanto, sob hipótese alguma, ser conduzida em canos de chumbo se quisermos que seja saudável (VITRUVIUS, 1960, VIII.6.10-11, tradução nossa ).

Fraudes escancaradas e enviesamentos invisíveis

Richard Lewontin coautoru com Richard Levins “O Biólogo Dialético”

Em sua conferência de 1990 na Universidade de Toronto, intitulada Biologia como Ideologia, Richard Lewontin teceu interessantes observações sobre como a ciência ocupou, em uma sociedade mais secular e racionalista, um papel que antes era exclusivo da Igreja: o de prover justificativas para a consciência popular acerca dos fenômenos sociais. Para este geneticista, vencedor do prêmio Crafoord1 em 2015, a ciência como as demais atividades produtivas é “uma instituição social completamente integrada e influenciada pelas estruturas das demais instituições sociais” (LEWONTIN, 2000). Os problemas que ela lida, as ferramentas das quais ela dispõe, e até os resultados obtidos são fortemente influenciados pelas predisposições que advêm da sociedade na qual vivemos. A produção científica é uma atividade produtiva que consome tempo e dinheiro, então é natural que ela seja dirigida pelas forças que detêm o controle sobre o tempo e o dinheiro. Ela usa mercadorias e é parte do processo de produção de mercadorias. O capitalismo não só necessita dos efeitos econômicos da produção científica, mas ele se apropria ativamente das ideias científicas que lhe convém para sustentar as estruturas sociais que garantem sua dominação. Esse é um processo de mão dupla: o controle do capital sobre os cientistas e também o uso das ideias científicas pelo capital que justificam sua visão de ciência como ideologia (LEWONTIN, 1991).

Veremos nesse subcapítulo exemplos de duas formas diferentes através das quais essa ideologia silencia as vozes dissidentes e se perpetua: as fraudes abertas e os enviesamentos que se tornam quase invisíveis por serem compartilhados por toda uma comunidade de cientistas.

1Prêmio outorgado pela Academia Real de Ciências da Suécia nos campos não cobertos pelo Nobel

A solução das publicações de livre acesso e o novo problema das predatórias

Respondendo aos problemas do processo de publicação de artigos científicos, surgiu um novo tipo de periódico científico conhecido como publicação de acesso aberto. É o caso, por exemplo, da biblioteca de periódicos do projeto PLOS, que além de promover o livre acesso, não endossa os fatores de impacto como métricas úteis para avaliar a performance de artigos individuais. Para sustentar esse modelo, as publicações deste projeto cobram entre US$1.450 e U$2.900 dos autores por artigo, com a ressalva de que a impossibilidade do autor em pagar não impede a publicação, que é revisada por pares. Este modelo logo se revelou um sucesso e experimentou um crescimento exponencial. Um estudo estimou um salto de 19.500 artigos em publicações de acesso livre no ano 2000 para 191.850 em 2009, um aumento de 1.000% (LAAKSO, 2011).

Contudo, entre essas publicações de acesso livre, surgiram diversas tidas como predatórias, ou seja, dirigidas por grupos interessados apenas em recolher as taxas cobradas aos autores, sem oferecer os serviços editoriais e de publicação associados aos periódicos legítimos. O processo de revisão por pares dessas revistas muitas vezes se revelaram totalmente fraudulentos com o aceite chegando algumas vezes poucas horas após a submissão e correspondente pagamento da taxa. Jeffrey Beall, bibliotecário e professor-associado da Universidade de Colorado, defensor do modelo tradicional de publicação e um crítico do acesso livre, manteve durante muitos anos uma lista, na qual, em dezembro de 2016, constavam 1163 editoras responsáveis por publicações tidas como predatórias. Ele estimou que cerca de 25% dos periódicos de livre acesso tinham essas características. Similarmente, ele também notou o surgimento de conferências predatórias, organizadas por grupos interessados apenas na cobrança das altas taxas de inscrição (BEALL, 2017).

Beall foi duramente criticado por aqueles que consideram que ele, em nome da defesa do modelo tradicional, excedeu-se nas generalizações e caluniou publicações sérias, misturando-as com outras fraudulentas. Em janeiro de 2017, a lista de Beall e a página pessoal dele foram retiradas do site da Universidade do Colorado por conta das múltiplas notificações legais e ameaças de processo.

Iniciativa recente associada à de Beall foi realizada no Brasil pelos pesquisadores Paulo Inácio Prado, do Instituto de Biociências da USP, Roberto André Kraenkel, do Instituto de Física Teórica da Unesp, e Renato Mendes Coutinho, do Centro de Matemática, Computação e Cognição da UFABC. Eles criaram um banco de dados com o título de Preda Qualis, no qual cruzaram a lista de publicações tidas como predatórias com as listadas no Qualis, chegando a um total de 485 periódicos, sendo que 67% classificados nos estratos A e B, em, pelo menos, uma área de conhecimento. Eles chegaram à conclusão de que, ainda que a

baixa proporção de títulos potencialmente predatórios no QUALIS indica que o uso destes periódicos não é prática comum nos programas de pós-graduação brasileiros (…) há uma grande vulnerabilidade do sistema de avaliação da CAPES à invasão por este tipo de publicação (PRADO, P, 2017).

O fato é que a adoção de um ou outro dos modelos de publicação opostos, per si, não muda em nada a natureza mercantil da produção científica e sua apropriação, de uma forma ou de outra, pela lógica de autovalorização do capital, da mesma forma que o cooperativismo, o software livre, os alimentos orgânicos, os mutirões de habitação e tantos outros movimentos que se originaram de uma perspectiva anticapitalista, acabaram sendo usados pelo capital, de uma forma ou de outra, para oxigenar seu corpo moribundo. Sem uma transição para outro modo de produção, que resulte em outro fundamento sobre o qual se organize a sociedade, é ingênuo pensarmos na possibilidade de mediarmos ou mesmo impedirmos que a ciência seja imbuída da lógica mercantil.

Publicar, publicar, lucrar

O produtivismo na academia, que se expande por todo o globo, impõe-se pelo entrelaçamento da concessão de financiamento com a adoção de métricas de avaliação majoritariamente quantitativas e enviesadas.

No Brasil, esta pressão é responsável, por exemplo, pelo fato de que ocupemos, no ranking entre os diferentes países, a 12ª posição em quantidade de artigos indexados, enquanto que o número de citações a esses tenha caído para a 27ª posição. Como bem coloca Keneth de Cargo Jr, professor do Departamento de Planejamento e Administração em Saúde do Centro Biomédico da Universidade do Estado do Rio de Janeiro:

Espalham-se subterfúgios para incrementar a quantidade de artigos e capítulos publicados, e mesmo de citações: a produção em série de artigos sem maior interesse ou inovação, ainda que fundamentalmente corretos, a multiplicação do número de autores para cada texto sem que se considere adequadamente a atribuição de autoria, a distribuição de conteúdos entre diversas publicações (conhecida como publicação salame) e a criação de verdadeiros clubes de citação mútua são fenômenos há muito conhecidos na literatura mundial e que começam a se manifestar em nosso meio (DE CAMARGO JR, 2013).

Além das questões do financiamento condicionado a métricas quantitativas, a própria atividade de publicação se converteu em um ramo altamente lucrativo, com o acesso a artigos custando dezenas ou mesmo centenas de dólares. A mercantilização da ciência subsumida ao capital restringe a circulação das ideias científicas pelas cobranças efetuadas aos leitores dessas publicações.

Para Waters, há que se combater “a ideia de que as editoras universitárias deveriam se transformar em ‘centros lucrativos’ e contribuir para o orçamento geral da universidade” (WATERS, 2004, p. 2 tradução nossa). Esta teratologia, restringir a divulgação de resultados científicos com o intuito de lucro, utilizando-se do dissimulado argumento de valorização do trabalho do autor, foi alvo do questionamento de John Perry Barlow, um dos fundadores da Electronic Frontier Foundation:

É um consolo saber que a espécie humana conseguiu produzir um trabalho criativo decente durante 5000 anos que precederam 1710, quando o Estatuto de Anne, a primeira lei moderna de direitos autorais, foi aprovado pelo Parlamento Britânico. Sófocles, Dante, da Vinci, Botticelli, Michelangelo, Shakespeare, Newton, Cervantes, Bach – todos encontraram motivos para sair da cama pela manhã, sem esperar pela propriedade das obras que criaram (BARLOW, 2000).

Em 2004, os governos do Brasil e da Argentina foram responsáveis por promover A Declaração de Genebra Sobre o Futuro da OMPI, no marco do desenvolvimento de uma agenda para a Organização Mundial da Propriedade Intelectual, que afirma que “o mundo está enfrentando uma crise na governança do conhecimento, tecnologia e cultura” pelo acesso desigual a remédios e educação, pelas práticas anticompetitivas que levam à concentração de propriedade, impedindo o acesso ao domínio público por conta de interesses privados (DECLARATION, 2004). Na Europa uma iniciativa semelhante resultou na Declaração de Berlim sobre Acesso Livre ao Conhecimento nas Ciências e Humanidades que resultou em 2003 de uma conferência organizada pela Sociedade Max Plank (DECLARATION, 2003).

A Crise da Responsabilidade Acadêmica e a Crise do produtivismo

Do ponto de vista da sociologia, uma outra voz que se soma à percepção de uma crise generalizada na produção científica é a de Lindsay Waters, editor de humanidades da Harvard University Press, uma dais mais importantes editoras acadêmicas dos Estados Unidos.

Em seu provocativo ensaio Inimigos da Esperança Publicar, Perecer e o Eclipse da Erudição, ele traça um complexo cenário de deterioração da produção do saber, referindo-se à “crise da responsabilidade (accountability) acadêmica1”, “eclipse do valor”, “crise das monografias”, crise de “superprodução”, “crise generalizada da avaliação” (judgment) (WATERS, 2004, passim, tradução nossa). Para ele, a erosão do sistema de publicações com o boom de produção, caracterizado por um forte crescimento no número de artigos publicados a partir dos anos 1960, resulta de uma cultura de hiperinflação (WATERS, 2004, p. 22, tradução nossa).

O “problema é basear o mandato na quantidade de publicações, publicações que poucos leem” (WATERS, 2004, p. 7, tradução nossa). “Nos últimos 30 anos, passamos de vender um mínimo de 1.250 livros de cada título de humanidades para 275 livros” (WATERS, 2004, p. 16, tradução nossa).

Em sua ácida crítica ao modelo vigente, Waters alerta para o momento em “que o mercado se torne nossa prisão e que o valor do livro seja minado” (WATERS, 2004, p. 4, tradução nossa). Também chama atenção para o fato de que este problema não se restringe apenas à área das humanidades (WATERS, 2004, p. 18, tradução nossa) e diagnostica:

Adentramos a Zona Cinzenta (Twilight Zone) da pesquisa acadêmica, e agora a demanda por produtividade está levando à produção de muito mais nonsense. Em tempos como estes, pesquisadores inescrupulosos e confusos realizam falsas assertivas que guardam aparência de interessantíssimas, mas também inverificáveis assertivas. Podemos ver em toda parte ao redor de nós o eclipse do valor em uma cultura de hiperinflação. Editores de periódicos, especialmente, estão percebendo que eles não têm o tempo necessário para avaliar porque eles precisam manter a linha de montagem em movimento. (WATERS, 2004, p. 22, tradução nossa)

É neste contexto que o paradigma de publicar ou perecer leva ao que é chamado de ciência salame, quando se busca fatiar os resultados de uma pesquisa na menor unidade publicável, o menor quantum possível de conhecimento em uma publicação, de forma a inflar o número de publicações, maximizando o ranking do pesquisador de acordo com as métricas quantitativas. As publicações circulam em um ritmo cada vez maior, contudo carregando em si cada vez menos resultados inovadores cientificamente relevantes.

Fica evidente que esta velocidade de circulação das publicações não corresponde aos interesses do acúmulo de conhecimento e sim à própria velocidade de rotação do capital, que precisa ser ainda mais acelerada quando a crise se manifesta. Até neste aspecto, de uma crise na qual o sistema tem que girar a uma velocidade cada vez maior, pois a cada ciclo o valor incorporado é menor, a ciência da ciência se assemelha à do capital em geral.

Esse descompasso levou em 2011 um grupo de pesquisadores alemães, entre eles o neurocientista Jonas Obleser, da Sociedade Max Planck, a publicar o Manifesto Ciência Lenta, no qual relembram que:

A ciência precisa de tempo para pensar. A ciência precisa de tempo para ler e tempo para falhar. A ciência nem sempre sabe sobre o que pode estar neste momento. A ciência se desenvolve de forma instável, com movimentos bruscos e saltos imprevisíveis para a frente – ao mesmo tempo, no entanto, arrasta-se em uma escala de tempo muito lenta (SLOW SCIENCE MANIFESTO, 2010, tradução nossa).

1 O termo em inglês accountability pode ser apenas parcialmente traduzido para responsabilidade, pois o conceito traz outras cargas semânticas como prestação de contas, ação ética, transparência e credibilidade.

O significado do experimento científico

Contrariando a visão dos autores que desestimam a importância da replicabilidade dos experimentos, argumentamos que a mesma é uma exigência lógica que não apenas constitui um princípio do método científico, mas é uma exigência da filosofia materialista. Ela parte do pressuposto de que cada fenômeno tem a sua verdade material, de uma forma muito semelhante à qual este conceito é utilizado na ciência do direito. Se existe sangue derramado, este pode, ou não, ser o indício de que este local foi o cenário de um homicídio. Mas, de alguma forma o sangue apareceu ali, e deve-se buscar uma explicação material para isto.

Um dos primeiros cientistas a tratar do problema da reprodutibilidade dos experimentos abertamente foi o químico inglês Robert Boyle em obra publicada em 1675. Este autor trabalha com uma analogia entre a investigação científica e a investigação criminal:

Pois, embora o depoimento de uma única testemunha não seja suficiente para provar a culpa do acusado de assassinato; já o depoimento de duas testemunhas, mesmo que de igual crédito (…) normalmente basta para provar a culpa de um homem; porque é considerado razoável supor que, embora cada testemunho individual seja provável, a concorrência destas probabilidades, (o que na razão deve ser atribuído à verdade do que eles tendem a provar conjuntamente) podem equivaler a uma certeza moral, isto é, uma certeza, que possa garantir que o juiz proceda à sentença de morte contra a parte indiciada. (BOYLE apud SHAPIN 1985).

Como vimos, alguns pesquisadores tendem a buscar a explicação para este fenômeno se restringindo apenas a questões técnicas. Um exemplo, a recente pesquisa que responsabiliza a qualidade dos anticorpos empregados nos laboratórios (que os consomem de produtores especializados) pela verificada tendência à irreprodutibilidade dos experimentos na área das pesquisas imunológicas. Segundo este estudo, os cientistas falharam em não antever a necessidade de se certificar a qualidade de um dado insumo (BAKER, 2015).

Conhecer alegações como a de Bissel permitem uma aproximação ao real problema, que trataremos ao longo desta dissertação, nem tanto por seus argumentos, ao estilo de “a mão da boleira e não a receita impede o bolo de solar”, mas por sua motivação declarada: ela chama atenção para a suposta injustiça envolvida na interrupção de pesquisas milionárias, seja para as carreiras envolvidas, seja para os interesses associados aos financiamentos.

Contrariamente a esta proposição, argumentamos nesta dissertação que a quantidade de estudos irreplicáveis aponta a um problema mais essencial que não se trata simplesmente de uma guerra de egos, ou por recursos, ou mesmo um amplo charlatanismo entre os cientistas. Aventamos que, se aplicarmos a dialética da quantidade como acumulação de evidências de uma transformação na qualidade, na essência da crise de reprodutibilidade/replicabilidade pode estar uma crise de paradigmas na ciência, relacionada por sua vez à crise orgânica do capital.